Retrato na Parede

Edição: 634 Publicado por: Gilberto Monteiro em 13/02/2019 as 08:27

 
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Vez ou outra somos vítimas de acontecimentos desastrosos. Não faz tanto tempo que uma chuva torrencial caiu sobre Teresópolis, Petrópolis e outras cidades serranas causando a morte de cerca de mil pessoas. Naquela ocasião o que mais surpreendeu foram os deslizamentos ocorridos em plena mata cerrada. As serras ficaram profundamente arranhadas e até se levantou a hipótese de pequeno abalo sísmico. A natureza mostrou a sua força e, talvez, estivesse dando um grito de alerta.

A falta de planejamento nas cidades, que só fazem crescer; o uso abusivo do solo; a ganância desmesurada; a permissividade do poder público, que tudo vai autorizando, verdadeiro pacto velado, onde os votos são a moeda de troca, são os grandes componentes do coquetel que se oferece, não para a festa da natureza mas sim para que ela comprove a sua força. E ela responde...

O minério de ferro, a produção de soja e a produção de carne (bovina, suína e de aves) tornaram-se a “menina dos olhos” dos grandes empresários ao mesmo tempo que trazem o quase equilíbrio da balança econômica do Brasil.

Tudo, no entanto, vai sendo feito à revelia do cuidado. Carlos Drummond de Andrade já nos disse “Itabira, hoje, é apenas um retrato na parede”. A frase que censura os abusos no extrativismo mineral, partindo de um poeta, nos parece dura demais. A poesia é assim mesmo, usando de metáforas, ela pode: alertar, declarar amor, fazer rir ou chorar, reacender preocupações, aquecer saudades e cuidados, elogiar, ou simplesmente tornar explícitos os sentimentos do autor.

Agora, em Brumadinho, bem perto de Inhotim, o maior museu a céu aberto, a infelicidade se fez presente numa forte prova do descaso e do descuido. Os dois, aliados à confiança ilimitada que o brasileiro vai depositando no sucesso e construindo casas em um vale que seria o escoadouro natural do perigo que morava acima, em muito cooperaram com tantas perdas de vidas humanas.

Aqui em Valença, a gente vive numa cidade estendida abaixo de meio círculo de montanhas que vão da serra da Glória até o João Dias. Paisagem bonita sempre agredida, ora pelo fogo, que arde ano a ano, ora pelas obras que até desrespeitam a cota. O bairro das Laranjeiras, por um corte de morro, errado mas autorizado, já viveu drama de se transformar em atoleiro. O nosso pensamento ou até a falta dele, nos coloca bem vulneráveis aos problemas causados pela desconsideração ambiental. A chuva que cai por toda a área de serra busca escoamento no rio que corre lá na passagem e o único caminho da água é por dentro da cidade. Logo o perigo existe.

Numa época de enchentes, no vale do Itajaí, o então governador Esperidião Amim, que não tem um só fio de cabelo, estava sendo pressionado pela imprensa como culpado, foi então que se saiu com esta: “Não incentivo o fogo, não aprovo o desmatamento e faço-lhes uma pergunta: - Se derramarmos um copo d’água na minha cabeça e outro na cabeça desse repórter cabeludo, aqui do lado, qual será a diferença?

Só estaremos, nós valencianos, isentos de sérios problemas ambientais se as nossas serras forem protegidas do fogo e do desmatamento. Só o nosso cuidado poderá fazer com que elas, as serras, agora tombadas pelo Inepac, como patrimônio natural, ao serem preservadas, nos livrem de, plagiando Carlos Drummond de Andrade, digamos, um dia; - Valença, agora, é apenas um retrato na parede. Isto só ocorrerá quando não usarmos mais avaliação pétrea de que estamos isentos do perigo.

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