Refletindo o Carnaval...

Edição: 638 Publicado por: Hélio Suzano em 13/03/2019 as 08:18

 
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Completei neste ano de 2019 meu terceiro carnaval em Valença como gestor na Secretaria de Cultura e Turismo. Talvez este tenha sido meu maior desafio. Onde mais me arrisquei, pois encontramos uma cidade sem carnaval, sem alegria, sem espontaneidade e sem espírito de bem comum, mergulhada em crise financeira e ética. Um cenário difícil e, como vice-prefeito - que poderia muito bem viver da sobra de vice - me coloquei na trincheira, com a confiança e apoio do prefeito.

Aqui em Valença, começamos mexendo em algumas estruturas, o que é complicado pois aqui vivemos de passado, e com toda razão e justificativa: fomos o berço do período áureo do Vale do Café, com toda sua riqueza e opulência; vivemos a chegada de imigrantes italianos com suas grandes tecelagens e seu espírito empreendedor; cultivamos a terra e o gado como bacia leiteira e cultural de nossa mineirice; testemunhamos o nascimento glorioso de uma fundação educacional que nos colocou no cenário das melhores faculdades do Brasil; vivemos a riqueza de uma cidade que se orgulhava de seus beneméritos, de seus comerciantes e empresários, de seu políticos de fama renomada com grandes acontecimentos, grandes carnavais...

Há coisa de vinte e cinco, trinta anos atrás, pode-se dizer, não existia carnaval em Rio das Flores, em Rio Preto, em Conservatória, em Barra do Piraí, em Volta Redonda e tantas mais, mas existia em Valença! Nós éramos de fato e de direito o melhor carnaval do Sul Fluminense! Não havia internet, com suas redes sociais levando informação e desinformação de forma quase instantânea para o mundo todo. Não tínhamos as estradas asfaltadas como hoje, os telefones, smartphone e outros fones, uma diversidade de canais de TV e de opções de lazer, a rapidez da notícia e a multiplicidade de opções e considerações para decidir. De fato, o mundo girava aos nossos pés.

Foi um tempo de ouro onde grandes figuras como os beneméritos da família Fonseca, os mecenas dos carnavais como Baianinho o líder, grandes políticos e figuras como Clóvis Correa e Fernando Graça que deixaram legados e muitas histórias.

Tempos das escolas de samba forjadas nas comunidades, bancadas pela feijoada da dona Maria, pelo bingo do seu Duílio, pela emoção e amor do seu Demerval, da dona Sebastiana e tantas anas e marias que nem posso lembrar. Outros tempos. Eram tempos que corriam noutro sentido, ritmados pelo trem, depois pelo ônibus da Valenciana e, por fim, pelo amor de uma classe média que se punha a servir e a construir, e por uma comunidade alegre com autoestima elevada.

Organizar um carnaval nos dias bicudos de hoje, tendo este comparativo... que furada em que me meti! Mas julgo humildemente que fui vencedor. Ou melhor, fomos, vencedores. Tivemos o mérito de acreditar nas pessoas e ter crédito com estas pessoas o que possibilitou termos de volta a espontaneidade, a gratuidade com as comunidades se organizando em blocos (cerca de vinte blocos desfilaram em Valença e quase 25 incluindo distritos) indo às ruas com sua alegria, fomentadas por nossas ações, pela estrutura e infraestrutura que oferecemos, pela segurança, com marchinhas, sambas-enredos, pelas atrações musicais de grande qualidade que trouxemos, pela diversidade de opções para todas as idades e sabores. E isto em todos os distritos, da mesma forma, com o mesmo respeito pela comunidade. Tudo a baixo custo, dentro de nossas limitações de financeiras e de mão de obra.

Os enfeites, por exemplo, que tanta polêmica geraram nas redes sociais, foram confeccionados aqui mesmo, com imagens de pierrôs e colombinas, de máscaras e sambistas, imagens que se repetem em todos os carnavais do Brasil. Não temos mais o ineditismo de artistas como “Careca” Giesta ou Ineri Silva, mas ficaram apropriadas e aprendemos muito com estas críticas.

Minha reflexão se encerra aqui, na certeza do dever cumprido e de que muito há que se melhorar, aprumar e resgatar e que mesmo assim, nunca agradaremos a todos, mas que fizemos o melhor que podíamos. Obrigado!

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