Escola de Ingênuos

Edição: 642 Publicado por: Rodrigo Magalhães em 10/04/2019 as 09:55

 
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“Na fazenda denominada Vista-Alegre inauguraram no dia 23 do corrente os beneméritos viscondes de Pimentel, abastados agricultores no município de Valença, da província do Rio de Janeiro, uma escola destinada à instrução dos filhos livres das suas escravas” – assim estampava em suas páginas o jornal “Gazeta de Notícias”, de 26 de dezembro de 1879, em matéria cujo título era “Escola para Ingênuos”.

Consta que esse educandário foi o primeiro no país a alfabetizar filhos de escravos. A escola era um edifício perfeitamente preparado e iluminado a gás, compreendendo um salão para aulas, o refeitório, a biblioteca, sala de espera, cozinha e uma outra sala que servia para depósito. Informa-nos ainda a referida Gazeta de Noticias que a escola possuía 42 alunos, sendo 27 do sexo masculino e quinze do sexo feminino, todos, à exceção de oito, nascidos depois da lei de setembro (Lei do Ventre Livre), e que o professor era o Sr. Arthur Fernandes de Castro Bravo. Toda a inauguração foi acompanhada por uma banda de música (composta por escravos), muito conhecida na região, que participava de quase todas as festividades da localidade.

Exemplo claro do adiamento da abolição e aderência aos interesses dos grandes proprietários de escravos foi a aprovação da referida Lei de 28 de Setembro de 1871, mais conhecida como Lei do Ventre Livre. Nela, era dada a liberdade às próximas gerações de escravos, mas esses “filhos livres de mulher escrava” deveriam permanecer sob a posse do senhor da mãe até a idade de oito anos. Dado este período, o senhor optava entre entregar o menor ao Governo, o qual o indenizaria com a quantia de 600$000 réis, ou permanecer com ele até que este completasse a maioridade de 21 anos, podendo então desfrutar gratuitamente de seus serviços. Além de “filhos livres de mulher escrava”, estes menores foram também chamados de “ingênuos”.

Ao contrário da maioria dos grandes produtores de café desse período escravocrata, o Visconde de Pimentel ao comprar a Fazenda Vista Alegre em Valença libertou todos os filhos dos escravos que ali trabalhavam, e ainda implementou a Escola de Ingênuos, onde essas crianças além de serem alfabetizados aprendiam música, teatro e religião. Foi através desse homem de ideais progressistas e de ideias avançadas para o seu tempo que Valença, terras tão distantes do centro cultural do Brasil do segundo Império, entrou para a historiografia nacional através dessa notável atuação para o ingresso dos escravos na vida em liberdade e pioneira no campo das artes, da cultura e da educação na segunda metade do século XIX.

1 comentários

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Sonia Mattos em 04/05/2019 às 22:02 disse:

Pimentel era um iluminista. Suas atitudes revelam um caráter evoluído e filantropo, embora não tenha sido um "abolicionista" no sentido estritamente político do termo. Da mesma forma como libertou e educou crianças filhas de escravos, o Visconde investiu na industrialização do beneficiamento do café, o que levaria à redução progressiva da necessidade do trabalho servil. Infelizmente, devido a um lapso historiográfico, muitas das suas inovações acabaram sendo atribuídas ao Barão de Vista Alegre, Manoel Pereira de Souza Barros que, contudo, jamais foi dono da Fazenda Vista Alegre, e sim das vizinhas Campo Alegre e Chacrinha. O Visconde de Pimentel construiu um legado humanista do qual Valença deveria se orgulhar.
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