Os Diretores dos Índios

Edição: 645 Publicado por: Rodrigo Magalhães em 02/05/2019 as 08:41

 
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Os povos indígenas contribuíram de forma significativa para a cultura, os costumes e a formação da população do Vale do Rio Preto. Foram também os principais responsáveis pelo enriquecimento dos primeiros colonizadores, notadamente como mão de obra inaugural, ainda no final do século 18 e início do seguinte. À época houve uma verdadeira parceria entre esses percussores fazendeiros da região: visando terras, ouro e, principalmente, os índios.

Acredita-se que foi nas últimas décadas do século 17 que ocorreram os primeiros contatos dos bandeirantes paulistas com os índios que habitavam as florestas seculares e as matas virgens do então chamado “Cêrtão do Rio Prêto”. Mas são das últimas décadas dos 1700 os primeiros registros dos “Indios dos Certões dalem do Rio Preto”, conforme foram denominados primeiramente. Datam de 1780 e dão conta de que viviam em um território que se estendia desde os atuais municípios fluminenses de Rio das Flores e Valença, passando pelos mineiros Santa Bárbara do Monte Verde e Rio Preto, indo até a região onde o município de Santa Rita de Jacutinga faz limite com Passa Vinte.

E com a chegada de várias outras famílias que migraram para a região a fim de cultivar as suas roças e, principalmente, a extrair ouro do rio Preto e seus afluentes, como era de se esperar, os índios se opuseram a isso e mostraram-se revoltosos com a invasão e a posse indevida de suas terras. Vencê-los, como às condições ambientais da mata Atlântica e à fauna que por lá vivia, era esforço para poucos.

Foi nesse contexto que surgiu a figura do Diretor dos Índios e deu-se princípio à catequese e civilização dos mesmos. O fazendeiro José Rodrigues da Cruz, senhor da fazenda de Ubá, foi a primeira pessoa a ocupar esse importante cargo no Vale do Rio Preto, desde 1799, quando assumiu formalmente a função. Possuidor de extensas terras que careciam de mão de obra para explorá-las, ele procurou logo conquistar a simpatia desses indígenas. Valendo-se do subterfúgio de representá-los em requerimentos às autoridades portuguesas, obteve com facilidade a prerrogativa de exercer controle sobre os índios da região, sem que isso pudesse ser caracterizado como escravidão (que feria os princípios da lei). Contornava, com esse expediente, os problemas de ordem jurídica e moral.

Desse conluio participaria, além do Diretor dos índios (José Rodrigues), o Capitão Miguel Rodrigues da Costa (comandante do Presídio de Rio Preto) e o Guarda-mor Francisco Dionísio Bustamante Fortes (fundador da Fazenda Santa Clara), a última personagem a ocupar esse importante e vantajoso cargo, até o ano de 1820, quando faleceu. Contra o segundo a exercer a função de Diretor dos Índios do Vale do Rio Preto, o capitão Miguel Rodrigues, que era genro do antecessor, houve, inclusive, uma representação formal nesse sentido, diretamente na Assembleia Geral Constituinte, em 1823.

Vários estudos e fatos novos dão conta de que uma boa parcela desses indígenas que habitaram o Vale do Rio Preto se prestou como reduto de mão de obra para a lavra mineral, agrícola ou serviços gerais na construção civil. Pois, na realidade, os negócios mais lucrativos de seus diretores concentravam-se em domesticá-los para servirem de “braços” em suas extensas fazendas. Era o chamado “ouro vermelho”, que nessas paragens à época era abundante, com predomínio dos Coroados.

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