O esforço do jornalzinho

Edição: 650 Publicado por: Aloísio Melo Morais em 05/06/2019 as 08:49

 
Leitura sugerida

Os pequenos jornais das pequenas cidades, quando conseguem sobreviver através do tempo, são porque o seu editor sempre é um incansável lutador. E digo isso porque o jornal depende de dinheiro para manter sua periodicidade em dia, e credibilidade junto aos leitores. Sem o vil metal não há página, histórias ou notícias a se degustar no interior.

E quase sempre o editor não tem dinheiro para levar avante a sua empreitada. Ele depende e muito, dos anúncios para manter o jornal. Nos antigamente eram os assinantes que mantinham vivos os pequenos jornais. Mas hoje não, esses hebdomadários, quinzenários ou mensários, na sua maioria, não vão adiante por falta de apoio comercial.

Por mais que a internet tente locupletar-se de notícias ainda são as páginas dos jornais e revistas a melhor garantia da boa notícia. Ali traz detalhes, há sempre checagem das informações pelo editor. E, cá pra nós, por pior que seja o jornalzinho do interior, o leitor gosta de lê-lo. Afinal, é naquele espaço que ele se identifica com a comunidade.

“O que é um jornalzinho do interior”, este foi o título de uma curiosa crônica publicada num pequeno jornal, que ao final direi o nome, por um autor que não se identificou à época: 15 de fevereiro de 1934. Valeu-me a pena lê-la e saboreá-la. Ela traduz bem, até os dias de hoje, as dificuldades de sobrevivência de um pequeno jornal.

“Quando, em lugarejos do interior – em arraiais por exemplo – alguém se lembra da fundação de um jornalzinho, tem quase, senão sempre em mente, o engrandecimento do lugar” – assim começou o cronista anônimo o seu texto saboroso. Continuando, o escrevinhador diz: “escolhe-se, depois de muito matutar, o nome da futura folha; traça-se-lhe o programa a seguir; e, ...organiza-se, entre alguns amigos, uma caixa para fazer face as despesas quando os maus fados imperarem – todas as medalhas trazem verso e reverso...”.

“Isto feito – com o pagamento sempre adeantado por conveniência da redação, e, por que não? – também, da tipografia, que se dispõe a impressão do jornalzinho – Zás! Mão à obra: o jornal na rua! Flores, festas e... a tiragem é pequena para satisfazer as assinaturas!

Corre o tempo. Cioso de seus deveres, o jornalzinho no desenvolvimento do programa impresso no primeiro número, faz uma pequena e inocente reclamação sobre algum fato que peca contra os foros de civilisação de seu berço. Zás! O primeiro descontentamento surge. Inicia-se, d’aí em diante, a campanha contra o modesto jornalzinho de arraial...

Pedidos aos amigos para não continuarem a assinar o jornalzinho, para que ele, em menor tempo possível, desapareça da circulação, visto começar a incomodar... Uns assinantes, que o são só por amizade pessoal a algum redator, zangam-se por que o jornalzinho está fazendo politicalha baixa.

Outros porque... por imitação, talvez, devolveu o jornalzinho. Outros mais porque o jornalzinho acha que os jardins públicos não são forragens, pretendem devolver o jornalzinho. Outros ainda, porque, talvez o “repórter” do jornalzinho deixou de noticiar seus passeios a extranhas terras...bumba! Devolve o seu jornalzinho e o de um dos seus amigos...

E assim, costuma nascer; entre os descontentes, a esperança de que o jornalzinho do arraial morra. Mas...há sempre um mas que é o desespero de muita gente... o redator proprietário, quando é previdente, arranja as coisas de modo a poder manter seu jornalzinho com algumas assinaturas a menos.

E assim, vai labutando o jornalzinho de arraial.”

Gostoso o texto, tirado do jornal “O Candieiro”, de Santa Isabel de Rio Preto, criado em 1930 pelos médicos Sebastião Ferreira Pinto e Rodolpho Milward. A trajetória desses pequenos jornais é bem lembrada no livro “Imprensa Valenciana”, de autoria de Gustavo Abruzzini de Barros. Vale a pena ler o livro, fruto de laboriosa pesquisa do nosso editor.

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