As Viscondessas e Valença

Edição: 651 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 12/06/2019 as 10:00

 
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A cultura do café marcou um período de prosperidade e crescimento na história de Valença, sendo considerado como o apogeu econômico e político da região. Surgiram nessa época os “Barões do Café” no Vale do Rio Preto, local que, certamente, abrigou uma das maiores concentrações de aristocratas rurais de todo o Brasil, onde essas designações de fidalguia aportaram no século XIX. Os cinco principais títulos de nobreza formavam uma escadinha hierárquica que obedecia à seguinte ordem, a começar do mais poderoso: duque, marquês, conde, visconde e barão.

No total, 1.211 títulos de nobreza foram distribuídos no país. Desse universo, interessante observar que apenas 26 mulheres foram agraciadas pelo Império Brasileiro com o título de Viscondessa, em mais de um milheiro de homens, excluídas as esposas dos titulares, às quais se estendia o título, por hábito de cortesia e de nobiliarquia. E era no território de Valença que duas dessas importantes mulheres brasileiras do século XIX possuíam propriedades rurais: as Viscondessas de Monte Verde e de Santa Justa, as únicas com tal titulação em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, respectivamente.

Embora situada em terras mineiras a principal fazenda da abastada família Fortes Bustamante e Sá no Vale do Rio Preto – Santa Clara, do outro lado rio, em território valenciano (atual localidade denominada João Honório, no distrito de Parapeúna), além de vastas plantações de café e de senzalas complementares existia também a suntuosa Fazenda de Santa Thereza, ambas de propriedade do comendador Thereziano Fortes, que foi quem deu início às obras da Igreja Matriz Nosso Senhor dos Passos, em Rio Preto, no ano de 1835. Com o precoce falecimento do comendador em 1854, coube à viúva Maria Theresa Souza Fortes continuar as obras, doando mais dinheiro e várias arrobas de café. Ela pertencia a grandes irmandades de Pernambuco, São João del-Rei e Congonhas do Campo. Toda vez que viajava, retornava para a Vila de Rio Preto, onde chegava em grande estilo e luxuoso aparato, comparável aos da Corte, sempre acompanhada de mucamas, pajens, belos animais e ricas liteiras. Foi ela quem contratou Vilaronga, o arquiteto catalão que finalizou a luxuosa edificação da Matriz e possibilitou a sua inauguração em 26 de setembro de 1860. Em reconhecimento a essa notória contribuição pública, devido à magnificência da Igreja construída com seu próprio dinheiro, por meio de dois Decretos Imperiais (de 5 de fevereiro de 1861 e 17 de abril de 1867), Maria Theresa foi agraciada com os títulos nobiliárquicos de Baronesa e Viscondessa do Monte Verde, respectivamente. Assim, tornou-se a única mulher a receber a titulação de Viscondessa em toda a Província de Minas Gerais.

Descendo o mesmo rio Preto, encontramos situada igualmente em suas margens a imponente Fazenda de Santa Justa, de propriedade do Barão do mesmo nome. Após o seu falecimento, a viúva Bernardina Alves Barbosa continuou a exercer sua autoridade, auxiliando os filhos na administração das propriedades que possuía naquela região do município de Valença (hoje Rio das Flores). Consta que era mulher inteligente, dinâmica e com larga visão mercantil, porém autoritária. Ela se tornou Baronesa por decreto de 28 de junho de 1876. Conta-se que, com o passar dos anos, o fato de não ser mais a única Baronesa das redondezas, deixou-a descontente e de tal forma inconformada que partiu para a Corte, onde solicitou uma audiência diretamente com o Imperador e, sem rodeios, expôs suas qualidades e os motivos pelos quais se julgava merecedora de elevar-se no grau de nobreza. Assim, pelo Decreto Imperial datado de 9 de fevereiro de 1889, viu-se Bernardina agraciada com o título de Viscondessa de Santa Justa, a única mulher a receber essa titulação na Província do Rio de Janeiro.

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