Um hacker rural

Edição: 653 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 26/06/2019 as 09:56

 
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Há dias, a qualquer momento que você abrir um jornal diário, você leitor(a), verá ali as notícias sobre as ditas mensagens interceptadas nos celulares do ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol. O site “The Intercept Brasil” virou, de repente, órgão sério de divulgação dessas fofocas.

Essa polêmica se instalou, há dias, no país. Se se trata de uma invasão criminosa ou não da privacidade de autoridades, o fato é que a fofoca virou bola da vez. Isso faz lembrar os telefones rurais antigos. Comparáveis aos “Wi-fones” de hoje, eram apenas aparelhos rudes, à manivela.

No entanto, os “tijolaços” daqueles tempos, a pilhas grandes, faziam o mesmo que os celulares modernos, levando e trazendo fofocas fresquinhas para deleite dos interessados. Se hoje tem “The Intercept”, naquela época também tinha interceptador. Era um ouvinte silencioso que preferia a mudez e ouvir as conversas alheias.

Sim, era assim mesmo. Eram tão rudimentares os telefones rurais que quando um fazendeiro, ou esposa, ou parente dele falava ao telefone com outro fazendeiro, um terceiro ouvinte, um bisbilhoteiro, interceptava a conversa. E aquele “The intercept” podia fazer de tudo: desde participar da conversa ou só escutá-la.

Ou seja, o(a) bisbilhoteiro(a) ficava sabendo daquilo que não lhe interessava ou, por outra, ou que passava a se interessar. Aí valia de tudo: desde fazer fofoca, ou até sugerir opções ou emitir opiniões sobre o assunto conversado. Enfim, de site sem segurança nenhuma, o bisbilhoteiro passava a confiável se aceito no bate-papo.

Dona Marinhola era uma dessas enxeridas que não saía de perto do telefone da fazenda. Enquanto seu marido cuidava dos afazeres da lida diária, curral, cercas, empregados, etc., ela não tirava do ouvido o fone. Tinha até uma cadeira próxima ao aparelho para ficar cômoda ali.

Ouvia todas as conversas atravessadas pelos fios dos telefones que ligavam as várias outras propriedades rurais da região. Dava notícias de tudo que acontecia. Contava para o marido quem estava vendendo gado, quem fazia aniversário, ou quem ia viajar e pra fazer o quê, “não-sei-onde” - explicava.

Enfim, a abelhuda era chegadíssima a uma fofoca. Até que um dia a casa caiu. Marinhola foi flagrada pelo marido em conversa com o Aurélio, outro fazendeiro e vizinho de terras do casal. Sabia a mulher que o marido tinha ciúmes doentios por esse vizinho, mesmo assim, ela conversava.

O que ela não sabia é que o seu marido, há tempos, havia instalado um “The incerpet”, um telefone em uma casa de colono, abandonada, ali perto da sede da fazenda. Quando ele saía de casa ia direto pra essa outra casa e, dali, também “hackeava” as tais conversas telefônicas.

E foi assim que ele ficou sabendo que Marinhola estava cheia de “caraminholas” na cabeça para dar para o Aurélio.

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