Formação de Professores de Nível Médio: uma reflexão necessária.

Edição: 654 Publicado por: João Crispim Victorio* em 03/07/2019 as 08:08

 
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Desde o início do século XXI, vivemos em todo nosso país, um processo regressivo na busca dos cursos de formação de professores de nível médio. O número de jovens que inicia o curso e vai até o fim, também está cadente. Observo esse fato no meu dia a dia de educador, lecionando disciplinas pedagógicas, e acompanhando de perto a trajetória desses jovens em alguns colégios ou institutos, como eram chamados no passado recente, da Rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

Se há demanda para essa modalidade, principalmente nas cidades do interior, onde a obrigação com a Educação do Estado - Ensino Médio, se confunde com a dos municípios – Ensino Fundamental, principalmente, por “falta de recursos”, é o que dizem os prefeitos, então, que se faça a coisa de maneira correta. Pois evidencio algumas necessidades básicas como a falta de investimento na formação continuada do docente; pouco acesso ao material didático, que é suporte necessário para embasar os conteúdos ensinados; falta de uma organização financeira mínima para realizações de aulas passeio nos museus e centros acadêmicos, esta é, inclusive, uma forma de aumentar o capital cultural dos nossos alunos e mesmo dos próprios professores; valorizar o estudo e a carreira no magistério.

Hoje, no cenário atual, quando questiono um aluno sobre seu interesse em cursar Pedagogia ou qualquer outro curso que o habilite à docência, já que o mesmo está em um curso normal, sua resposta é negativa e sempre acompanhada de comentários, também, negativos. Isso mostra o seu total desinteresse pelo magistério. Acredito que essa falta de interesse se dê ao “prestígio” que gozam algumas outras profissões em nosso país em detrimento da profissão de professor. Mas a resposta do aluno, no meu entender, chama atenção para uma outra questão, tão grave quanto a já citada. Vejamos. Para ele o curso de formação de professores que lhe é oferecido, não tem relação com a identidade profissional, uma verdade. Sem me aprofundar muito aqui sobre esta questão, digo que a falta de identidade profissional é um problema que tem raízes no passado e continua a acontecer entre nós, professores, porém, nem sempre percebemos.

Aproveitando a discussão sobre o desinteresse do aluno, trago à baila a questão da indisciplina, vertente importante dessa análise. Será que o desinteresse pela docência justifica o comportamento inadequado dos alunos ou isso é coisa da adolescência, já que o modo como se comportam é sempre visto como algo próprio da idade? Particularmente percebo, infelizmente, que a falta de interesse pela escola vem desde o ensino fundamental e chega até ao ensino médio devido ao descaso do poder público tanto com os professores quanto com as escolas. Vejo, também, que a falta de valorização do profissional da educação o torna desmotivado, isso reflete na sua vida social, já que no sistema capitalista é bem-sucedido quem tem bens materiais e poder de compra. É assim que a maioria da sociedade vê. Mas em se tratando do professor de ensino médio na Modalidade Normal, o problema é mais grave, pois esta é uma etapa da educação básica que envolve a construção de uma identidade profissional dos alunos.

Dentro do sistema político e ideológico que vem sendo construído pelas elites brasileiras desde o período colonial, ensinar tem um propósito, uma finalidade. Acredito que na luta contra hegemônica esses não são os nossos propósitos, muito menos a nossa finalidade. Devemos ir além de passar os conhecimentos acumulados para construção da sociedade futura e de promover a manutenção da ordem vigente. Sendo assim, trago para o debate a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB/96, e seus artigos referentes aos princípios e fins da educação nacional, já que temos uma importante reflexão a fazer, será mesmo que a escola está formando cidadãos para o exercício da cidadania e qualificados para o trabalho? De que cidadania e trabalho estamos falando? Esta é a pergunta que em se tratando do curso de formação de professores devemos responder antes de considerar essas finalidades essenciais. Porém, com nossos alunos desmotivados e descompromissados com a docência, como alcançar tal objetivo?

É urgente e necessário a reflexão sobre o curso de formação de professores de nível médio e o problema não pode ser analisado apenas no âmbito das questões pedagógicas. Devemos levar em consideração todo o processo histórico, social e cultural que influenciam diretamente a formação de nossa sociedade, consequentemente de nossos alunos. Nesse sentido, o papel da escola e do professor, enquanto agentes formadores e transformadores da realidade posta, deve ser o de fiscalizar e cobrar a aplicação de verbas e de políticas públicas direcionadas à educação. Não vejo outra saída para o sistema de educação brasileiro, a não ser o de garantir condições de trabalho, recursos financeiros suficientes e valorização do profissional da educação.

 

*Professor, especialista em Educação e poeta.

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