Coisa de matador de comunista

Edição: 654 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 03/07/2019 as 08:42

 
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Lembro bem quando eu ouvi a notícia da revolução. Eu tinha quatorze anos. Brincava de desenhar no chão, ao lado da máquina de costura da minha mãe, que costurava. Em cima, na parede, ficava o rádio sobre uma prateleira escorada por duas mãozinhas-francesas.

Naquela hora, à tarde, o noticiário falava do estouro da revolução pela manhã, e, que dizia, assim, o locutor: “a caça aos comunistas não vai ter trégua”. Em geral, o povo da cidade só falava que “comunistas iam comer crianças”, que “iam tomar as terras dos fazendeiros”, e por aí afora.

Era tanto medo impregnado na cabeça das pessoas que minha mãe acreditava em tudo que fofocavam pelas ruas. Principalmente sobre a religião: “vocês vão ver, os comunistas queimam tudo que é igreja, mandam padre pros inferno. É o diabo solto, vocês vão ver!” – diziam.

Por causa de todas essas lorotas é que a maioria do povo apoiou a revolução. Muitos oferecidos se organizaram no município para combater ao lado dos revoltosos. O Major Parada foi o encarregado na cidade de arregimentar homens para “A marcha pela Democracia”, nome que deram ao movimento insurgente contra os comunistas.

E assim, enquanto se organizava a tropa, os boatos em todos os rincões do município se multiplicavam. Chegou a notícia que lá pelos lados da Serra de São Gabriel (Funil) tinha caído um avião cheio de armas russas. Armas de último tipo, de precisão milimétrica a quinhentos metros de distância.

Dessas é que o pelotão da cidade estava querendo para o combate implacável aos “facínoras comedores de crianças”. Enfim, quem tinha arma se apresentou ao Major Parada para o treinamento de tiro. As tais armas do tal avião, até hoje, nunca chegaram. Enfim, chegou o dia da partida.

Na praça, defronte à matriz, as famílias, com mulheres, filhos, avós, avôs, choravam pelos maridos, filhos e netos que partiam para o front. O caminhão saiu roncando e deixando pra trás muita poeira, medo e saudades. No veículo, a caminho de Valença, e, dali pro Rio de Janeiro, os valentes eram os mais prosas.

O mais afoito era o Elisiário Formigueiro. Com uma espingarda de encher-pela-boca estufava o peito pra dizer: “Não volto pra casa sem amarrotar um comunista”. Na cintura uma peixeira. E, arrogante, prometia: “já falei prá minha mulher que essa faca é pra estripar um comunista”.

Mas, o caminhão dos valentes deu defeito no caminho, ainda antes de Valença. Depois ficou esclarecida a causa: quebrou o eixo de transmissão, coisa séria. O motorista disse pro Major Parada que não tinha jeito do caminhão prosseguir viagem. “Temos que voltar pra casa” – alertou o homem.

Parada ficou furioso: “mas como voltar pra casa. E a nossa honra? Saímos como heróis, e agora?” – vociferou o major. Voltar seria uma vergonha para todos. O jeito foi acampar à beira da estrada naquela noite e, no dia seguinte, uma solução haveria de acontecer.

E foi o que ocorreu. Naquela manhã, após o café com broa e quitandas (arrumadas pelas esposas) os revoltosos formaram o pelotão da volta. O Elisiário Formigueiro foi o primeiro a entrar em casa. A mulher que vivia aos trancos e barranco com ele ficou pálida. Passou as mãos no rosto do marido, não acreditando que era ele mesmo:

“- Você não é um fantasma” - ela ficou melosa com o marido. “Amor” pra cá, “amor” pra lá, fez carne moída com ora-pro-nobis para o marido (sabia que ele gostava) e, por fim, chamou Elisiário para deitarem juntos depois do almoço, coisa que não fazia há muito tempo.

O homem acordou com o Zé Portuga batendo na janela: “Elisiário, o Major tá formando o pelotão pra nóis partir pra revolução, outra vêis”. Agarradinho à mulher, Formigueiro respondeu de dentro do quarto, sem abrir a janela: “Portuga, diz pra ele que hoje eu não tô cum vontade de matar comunista, não!”.

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