A vertiginosa escalada dos meios digitais

Edição: 656 Publicado por: Redação em 17/07/2019 as 08:09

 
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Estamos fadados a morrer. O meio jornal físico, impresso em papel como convencionado desde a invenção de Gutemberg, está com os dias contados, preveem os profetas da modernidade. Nossa causa mortis: a vertiginosa escalada dos meios digitais. Desde a esquizofrênica rede social, passando pela pouca atenção voltada a informações mais aprofundadas, e chegando até à cova rasa dos frugais, viciantes e irrelevantes hábitos atuais de servir-se, o tempo todo, das avalanches de conteúdo vazio, proporcionado pela profusão de smartphones nas mãos de todos.

A evolução digital nos colocou neste beco – sem saída e com pouquíssimas chances de volta -, onde a atenção dos cérebros exige imagem, movimento, cor e efeito. Tudo o mais, na vida, nos parece, está se tornando coadjuvante, secundário e desnecessário. Tomam o poder de nossas vidas, a passos largos, o descartável, o efêmero e o instantâneo. O poder dos smartphones que nos conecta o tempo inteiro, nos dispersa e nos corrói. E promete nos fazer romper com qualquer outra atividade, mais contínua, mais profunda ou aberta. Estaremos fadados a nos fechar, enfim, a um patamar nunca visto de individualismo e de superficialidade. Tempos de rupturas e retomadas, repletas de riscos quanto aos caráteres paralelos dos avanços tecnológicos ao processo de comunicação dos seres de todas as comunidades do globo.

Os avanços são inúmeros e dignos de reconhecimento, é claro. O acesso é impressionante, inestimável e muito útil aos que sabem bem utilizar dele. No entanto, no que se refere a nossa atividade, ao contrário do que preveem, ainda há o que resistir à ameaça de extermínio do digital sobre o papel. Temos consciência de que nosso produto direciona-se, hoje, mais a pessoas de gerações acima da média dos quarenta anos de idade. Gerações que, pela experiência, vivenciaram o saudável consumo de conteúdos mais bem elaborados, aprofundados e apurados. E que mantêm o prazer de ler e informar-se de fatos e opiniões, com calma e bom senso. E está claro que o imediatismo e a instantaneidade têm gerado o “jornalismo” de versões e impressões – os já afamados fake news, e que só tem contribuído para nos aumentar a credibilidade que o jornalismo sério e responsável sempre deteve.

Por outro lado, a comunicação digital do disse me disse, do jornalismo pessoal do vi primeiro, está fadada a dissolver-se no ar e não servir para, no futuro, contar a história de um tempo. Ao passo que, o que se publica num jornal é registro perene, pesquisável eis que concreto e real, em arquivos oficiais ou extraoficiais das coleções da própria empresa, de assinantes ou da bicentenária Biblioteca Nacional. Isto é claro, caso o veículo cumpra e esteja em dia com a Lei do Depósito Legal, que é o nosso caso, desde quando começamos há quase treze anos.

Ou seja, daqui a trinta anos, é possível que um fato histórico e um fato corriqueiro de uma cidade do interior, não se encontre numa pesquisa na internet, devido a sua pouca significância para a rede de computadores, bem como diante das constantes atualizações dos sites e das redes sociais tão repletas de subjetividade e abstracionismos manipuladores. Enquanto, por outro lado, a história de Valença, senão tudo, uma grande parte de tudo que aconteceu no período que militamos é facilmente encontrado nas páginas físicas ou digitais do jornal, cujo compromisso sempre foi efetivo com a comunidade onde está inserido. O que sempre foi o nosso caso. O tempo vai passar, mas nosso registro permanecerá.

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