Um caso de assombração

Edição: 660 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 14/08/2019 as 09:55

 
Leitura sugerida

O Chico foi morar numa casa que diziam assombrada, lá no alto da serra. A casinha, vista de longe, cá da estrada, era pequena dentro do morro, dada a distância. O lugar era mesmo feio, rodeado por uma mata. Pra falar a verdade, ali mais parecia lugar de onça do que de assombração.

Mas o fato é que o Chico foi morar lá junto com o Aristeu, seu filho mais velho. A mulher e os outros três filhos não quiseram ir por medo. A notícia da tal casa corria na roça, desde a Vila da Conceição até o Ribeirão da Água Amarela, no alto da serra.

Fuxica daqui, dali, de tarde, de noite e a mal falada casa ficava fechada, e já há vários anos. Às vezes arrumava morador, mas quando descobria que era assombrada, pronto, o tal desanimava. Só mesmo o Chico, que tinha fama de corajoso e desassombrado é que topou morar na malfalada casa.

Meses se passaram com o Chico morando na casa. E nenhuma assombração apareceu, nem de dia e nem de noite. O velho ia na vendinha e carteava marra com os outros cachaceiros: “- Num tem sombração nenhum e se parecê eu mato” – garantia o homem. Se a casa não tinha mesmo nenhum lobisomem na rua da vila tinha fuxico novo.

Era público e notório que todos sabiam e só falavam à boca miúda, que a mulher do Chico andava de casos com muitos homens. Quando o velho vinha em final de semana visitar a mulher trazia abóbora, couve, cebolinha, enfim, trazia uma feirinha. Era só pra agradar e dormir com a mulher.

Nunca passou pela cabeça do Chico que a mulher o estava traindo. Ele só ficou sabendo disso durante uma discussão no botequim. O pior da pinga é a falta de respeito e a coragem que o cabra fica. E foi na confusão da briga que o Mané Fuinha disparou: “- Seu corno, sua muié é pió que braquiara. Dá em carqué lugá”.

Isso foi o bastante para o Chico chegar na casa da sogra e avisar para a mulher: “- Qué ocê quêra ou não, nóis vai morá junto lá em casa”. A mulher conhecia a bravura do marido e, então, arrumou as trouxas. Junto com os outros três filhos, ainda menores, foi embora com o marido.

E novos dias começaram para o Chico morando na casinha dita mal-assombrada. Até então o velho não tinha conhecido nenhuma assombração. Vivia das suas roças de plantas e era retireiro do patrão, curral perto da morada. Saía cedo e voltava pra almoçar em casa.

Estava tudo correndo às mil maravilhas até que, determinada noite, escutaram o cachorro latir e sair correndo pro mato afora. Fez-se um silêncio e depois Chico ouviu um barulho estranho, como se fosse alguém arrastando um chinelo. E também uma gargalhada, parecia uma hiena.

Foi ensurdecedor e ecoou pelo vale. Dentro de casa a mulher e os filhos arrepiaram de medo. Chico acendeu a lamparina, pegou a espingarda carregada de chumbo grosso e abriu a porta. Lá fora uma escuridão sem fim. O velho não teve coragem de sair, mas pensou alto pra mulher ouvir:

“- Se tem mesmo assombração rondando a casa, eu lavo as mãos. Se é tem uma vantagem: não põe chifre. Nunca vi cornudo por conta de alma do outro mundo”.

0 comentários

avatar
Escreva seu comentário...
Seu nome...
Seu email...