O português João Baptista

Edição: 664 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 11/09/2019 as 09:36

 
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Em 1831, o cidadão português residente em Valença, Victorino José Gomes Carmilo, escreveu uma carta dirigida ao redator do jornal Aurora Fluminense, na Corte. Tratava-se, na verdade, de uma denúncia em que ele descrevia o atentado e a injustiça imputada à liberdade de outro português - João Baptista Reis Motta -, praticada pelo juiz de paz da vila de Valença. Reclamava que o dito juiz, não se atrevendo a castigar os escravos do Marquês de Baependi com o mesmo rigor que se fizera com os de outros, por conta de uma denunciada conjuração, resolveu voltar-se contra João Baptista e o prendeu arbitrariamente. Ao final da carta, acima de sua assinatura, Victorino José se autoproclama “O Valenciano Livre”. Porém, o corajoso denunciante não se manteve em Valença. Mudou-se para Santos/SP, onde chegou a ser provedor da Santa Casa, vice-cônsul de Portugal e presidente da Sociedade Portuguesa de Beneficência.

João Baptista, por sua vez, permaneceu na vila de Valença até o seu derradeiro dia. Além de ser preso injustamente por conta da frustrada revolta dos escravos valencianos que, inclusive, teve a sua fundamental participação, uma vez que foi ele que avisou as autoridades e assim possibilitou a prisão dos cativos revoltosos, sucessivas tragédias fazem de sua história pessoal um filme de ficção. De origem portuguesa, casara-se com Raymunda Motta, descendente de tradicional família cearense, da qual adotara o sobrenome. Em outubro de 1819 decidiu se mudar com a esposa e a filha recém-nascida, Justina, de Granja para a cidade do Recife. Mas a embarcação com todos os seus haveres foi apresada por piratas ingleses e toda a família foi deixada na praia de Camocim, cerca de 300 Km de Fortaleza.

Diante de tamanho revés, João Baptista decide deixar a esposa e a filha com o sogro, dizendo-lhe que se achava pobre e precisava formar pecúlio para a família. Seguiu então para o Recife com a intenção de, assim que pudesse, trazer para perto de si a família. Entretanto, em 1821, um novo revés lhe acomete por ocasião da “Revolta de Goiana”, que foi uma antecipação do movimento de independência da metrópole portuguesa. O estabelecimento de João Baptista foi saqueado e ele se viu obrigado a retirar-se para o Rio de Janeiro, por considerar esta cidade um local onde o elemento português ainda conseguia viver com menos hostilidade e perseguição.

Não se sabe se pela oportunidade ou sugestão de algum compatriota, João Baptista acabou chegando a Valença, em 1823, pouco antes de o arraial ser elevado à vila. Com intuito de crescer pelo trabalho, estabeleceu-se no comércio e novamente obteve êxito, conseguindo em pouco tempo formar considerável patrimônio. Perfeitamente integrado na comunidade valenciana, em 1828 chegou a ser eleito suplente de juiz de Paz. Tempos depois, quando D. Pedro I ordenou que se estabelecesse na vila de Valença uma “Casa de Correio”, o cidadão português João Baptista foi o escolhido e nomeado agente por “reunir as qualidades necessárias, não só por ser morador em casa permanente na Villa, mas por ter meios de prestar, gratuitamente, esse serviço, comprando até a sua custa todos os utensílios necessários para aquelle estabelecimento”.

Mas, desde os referidos acontecimentos de 1831, quando protestou contra o autoritarismo das autoridades locais e foi preso, bem como o fato de ser português e da confiança do imperador, colocaram-no como confrontante do poder dos senhores das terras na vila, naqueles tempos tão afeitos a arbitrariedades. Até que no dia 13 de abril de 1833, pouco antes de atingir seu maior intento de resgatar esposa e filha para junto de si, João Baptista, mais uma vez vítima de fatalidade, foi subitamente assassinado em Valença. E a tão querida e desejada filha, Justina, jamais reencontrou o pai.

 

FONTE: “Imprensa Valenciana”, do jornalista Gustavo Abruzzini de Barros.

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