Continuidade

Edição: 665 Publicado por: Redação em 18/09/2019 as 08:01

 
Leitura sugerida

Dando continuidade à reflexão de semana passada, acerca dos porquês de nossas infatigáveis queimadas, enveredaremos desta feita noutra, pela mesma linha da tradição ativa dos atos inconfessáveis de nossos antepassados que nos trouxeram até aqui. Os altos índices de violência que nos metem medo, nesta era, diuturnamente, remetem-nos à falsa crença de que se trata de acontecimentos próprios desta era, causados em boa parte pela situação do país que reproduz há décadas um modelo de injustiça social e seguidos desequilíbrios econômicos. Pois, a nosso ver, isto é o estopim do comportamento, mas não o reflexo, o impulso, a reação que leva à violência.

E novamente, acreditamos que a resposta e terapêutica está no passado colonial. O Brasil, ao contrário de muitos discursos apaziguadores, de que somos povo cordato, ordeiro e receptivo, expõe, constantemente, as vísceras de uma violência sem par. O Brasil dos otimistas é pontual. No entanto, está claro – cada vez mais – que somos o resultado de um país construído pela ação violenta do colonizador que, na ânsia econômica da exploração, tanto combateu e escravizou indígenas e, na sequência, adquiriu e escravizou seres humanos de origem africana. E para tal, muito se utilizou dos métodos dos mais violentos de tortura lícita e sob o aval da sociedade e até do clero. Do forte sobre o fraco, forjou-se a relação e o método que tanto sangue e injustiça derramou por nosso solo. Construíram-se mais que atos, sentimentos que passaram a compreender, desde então, a violência como que necessária, como que aceitável, por meio de justificativas de defesa, de lei vigente ou da ordem do espaço público, ou do controle às subversões e sedições. E o conceito permeará, também, o sentimento dos “fora da lei”, reagentes às tantas violências do passado, impõem-se pela cultura do forte (violento) sobre o fraco (de bem). Então, tudo se resolve com violência. Se conquista, se enriquece, se oprime, se reage, se revolta, se sobrevive, se arruína e se acerta por meio de atos, atitudes, discursos e posicionamentos supremacistas à beira, sempre, do descambar-se à violência extremada, contundente, assustadora e desnecessária, na maior parte das situações, até onde caberia um possível e saudável diálogo, como no trânsito.

O Brasil e cada um de seus municípios precisa realizar uma espécie de terapia coletiva que perpassa por compreender sua história e o DNA de seus antepassados, para superarmos nossos males e nossas mazelas. Há quem acredite que, por negligência, somos capazes de repetir erros do passado. Consideramos que por subconsciência discreta, porém latente, estamos sempre repetindo maneiras de ser e de compreender o mundo. E assim é que reproduzimos, em nossos presídios, os horrores vivenciados nos navios negreiros. Vivenciamos nas ruas das grandes metrópoles, o perde-ganha das incursões dos colonizadores no mato a roubarem a paz e o equilíbrio dos indígenas. E reproduzimos, pelas comunidades tomadas de traficantes e milicianos, as guerras de revolta que tão pouco o brasileiro conhece e que nunca foram resolvidas por diplomacia ou diálogo, mas sempre sob a espada de governos sempre autoritários ao extremo, ameaçados de seu poder. É preciso virarmos páginas, mas se não o fizermos conscientes do que fomos, não saberemos nunca lidar com o que somos.

0 comentários

avatar
Escreva seu comentário...
Seu nome...
Seu email...