Parabéns nessa data querida

Edição: 666 Publicado por: Marilda Vivas em 25/09/2019 as 09:54

 
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Aniversário

Valença, aos 162 anos, já não és tão jovem assim. Ou talvez sejas, não sei precisar. Quem sabe se as rugas que vejo despontar na tua aparência, aquelas, que aos meus olhos já não te mostram tão jovem assim, não sejam apenas as rugas minhas?

 

Modernidade

Quando nasci, as cidades já haviam derrubado e substituído suas muralhas pelo controle técnico do tempo. Valença, então com um pouco mais de cem anos de idade, estava plenamente adaptada aos processos de industrialização: o artesão já não era mais o dono dos meios de produção e meus pais, ela bem mais nova do que ele, já vendiam sua força de trabalho. Meus pais e todos os que aqui habitavam, tínhamos nosso tempo controlado pelo apito das fábricas. Ah, o apito das fábricas! Como esquecer?

 

Escravidão

Em 1953 a escravidão, como forma de trabalho humano, já havia sido extinta no Brasil, no papel que fosse. Na prática isso pouco ou nada significou. A relação de dominação-subordinação algum dia deixou de existir? Aqui e em qualquer outro lugar a servidão que lhe seguiu os passos persiste até os dias de hoje. Algumas voluntárias. Outras, nem tanto.

 

Lentidão

No distrito sede, e isso é coisa recente, a expansão de fronteiras dentro dos limites de seu território dá margem para o surgimento de espaços dotados de dinâmica própria.  Basta caminhar pelos bairros. Dia desses, passando pelo bairro São Francisco, me surpreendi com a diversidade do comércio local (barbearia, loja de roupas, material de construção etc.).

Os espaços constituídos pelos bairros são fragmentos que guardam todos os sentidos e contradições da cidade. Me encanto quando percebo isso.

 

Superação

Há de se admitir que Valença é única em muitos corações. Da década de 1950 até aqui, a cidade mudou bastante. Não são poucos os espaços ressignificados. Novos bairros criados. Casas antigas demolidas, memória coletiva ferida. Muitos prédios construídos. Comércio diversificado e ajustado à voracidade do capitalismo. Como não se ajustar aos novos padrões sociais de consumo? E as farmácias? Meu Deus! Como proliferam aqui no centro. E o que dizer daqueles que se esmeram por resgatar, no presente, marcos históricos de um passado não tão distante assim? Há quem se preocupe. E isso é bom como é bom saber que basta olhar ao redor para me deparar com os tons verdes que teimam em colorir as serras que nos cercam. Sei que aqui o tempo das jabuticabas e das mangas de qualidades variadas é certo de chegar. Gosto daqui. E é aqui que pretendo deixar ficar os meus corpos.

Tenho vontade de escrever que não importa a qualidade pífia dos políticos que temos. Sinto que a cidade caminha a despeito disso. Mas não posso escrever. Importa sim. E a pergunta que me faço é: quando vamos cortar ou pular essa cerca? Quando vamos romper com esse cerco e destruir as muralhas que nos oprimem em dignidade humana? Não sei. Percebo apenas que pensar em certos tipos enruga o teor de uma comemoração que se pretende festiva.

Valença vive.

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