Entrevista com um morto

Edição: 666 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 25/09/2019 as 09:55

 
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Desta vez estou absorvido numa entrevista que acabo de reler. Encontrei-a, outra vez, entre os meus alfarrábios, na minha gaveta de trabalho. Quanto ao entrevistado, direi seu nome ao final, mas vai, a seguir, o colóquio, que merece publicação pelos seus ensinamentos.

Quais dicas daria àqueles que almejam chegar ao seu patamar na literatura? As pessoas tendem a olhar para fora, e é isso que não deveriam fazer. Há um único meio de prosperar, e é voltando-se para sim mesmo. Como assim? Investigue o motivo que o impede de escrever. Veja se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração. Confesse a si mesmo que morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isso: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever?

E o que fazer se a resposta for positiva? Se você for capaz de enfrentar essa pergunta com um forte e simples: “Preciso”, então deve construir sua vida de acordo com tal necessidade. A vida tem que se tornar, até a hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.

Isso é tudo? Não. Depois, procure se aproximar da natureza. Tente dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor. Evite a principio aquelas formas que são muito usuais e comuns – são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força muito grande para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes.

Então o que fazer? Resguardar-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descrever suas tristezas e desejos. Os pensamentos passageiros e a crença em determinada beleza. Escreva com sinceridade íntima, serena, paciente e utilize, para se expressar, coisas que existem em seu ambiente, imagens de seus sonhos e objetos de sua lembrança.

Mas, e se esse ambiente for desinteressante? Nesse caso, não reclame dele, e sim de si mesmo. Para o criador não há nenhum ambiente insignificante. Mesmo que estivesse preso, não teria sempre a sua infância? Volte para ela a sua atenção. Procure trazer à tona todas as sensações submersas desse passado tão vasto. E, se por acaso tal ato resultar em versos, não pensará em perguntar a alguém se são bons ou ruins, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida.

Então não é preciso buscar a aprovação alheia? Não há meio pior para atrasar o desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que somente seu sentimento íntimo pode responder, na hora mais tranquila.

Suponho que para escrever bem seja necessário ler bastante e conhecer o trabalho de outros poetas e autores? Naturalmente. De todos os livros que possuo, no entanto, apenas alguns são indispensáveis, e dois se encontram sempre entre as minhas coisas, onde quer que eu esteja.

Quais? A Bíblia e os livros do grande poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen, com o seu romance Niels Lyhne e as Seis novelas (Mogens). Um mundo se abrirá aos seus olhos: a felicidade, a riqueza, a inconcebível grandeza de um mundo. Ame estes livros e aprenda neles o que lhe parecer digno de ser aprendido.

Por que Jacobsen? Se devo dizer com quem aprendi alguma coisa sobre a essência da criação, sobre sua profundidade e eternidade, só há dois nomes que posso mencionar: o de Jacobsen, grande poeta, e o de Auguste Rodin, escultor sem igual entre os artistas e, do qual, fui seu secretário.

A entrevista foi com o escritor e poeta já falecido, nascido em Praga, Rainer Maria Rilke (1875-1926). As perguntas fictícias e as respostas retiradas do livro “Cartas a um jovem poeta”, escritas para Franz Xaver Kappus, iniciante na arte da escrita de poesias. Merece leitura nossa.

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