A minha crônica

Edição: 668 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 09/10/2019 as 10:01

 
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Ante a tela em branco do meu computador neste dia reflexivo, quem eu encontro em cima de minha mesa? A Matilde. Movendo suas antenas, de leve, ela me olha e diz: - E aí, como se sente? Respondo: - Melhor, não pode ser. Estou vivo, com saúde e ainda cheio de tesão pela vida.

Sem dizer nada, a Matilde caminha pela mesa, lentamente, como a procurar algum grão. – Está com fome? – pergunto. Ela não responde, continua vagarosa, até que para: - Achei que o encontraria radiante. Mas estás pensativo. Fazia tempo que a minha amiga não aparecia quando escrevo.

E a minha baratinha preferida está certa. Eu, me encontro, no dia de hoje, em que faço esta crônica, completamente confuso. – O que anoto é crônica, causo ou história? Sofro nesta dúvida cruel de escrever textos, sem mesmo saber classificá-los ou dizer para que servem.

- Esta é a minha angústia, Matilde? – Não – responde - você não está confuso apenas por causa disso. Te conheço bem, e sei que tem algo mais a perturbá-lo. Não respondo à enxerida e continuo na minha reflexão. Acho que os meus textos não são reminiscências, confissões e nem opiniões.

Arrisco a dizer que tento escrever crônicas, este gênero popular e amado por todos. Sou um aprendiz delas. Não faltam nos jornais cronistas. Mas faltam neles quem nos ensine a escrever crônicas. Ah, se eu pudesse entrar a fundo na alma de um cronista, quanta vontade!

Saber o que pensa um deles quando escolhe um assunto pra escrever. Como seria bom que dessem essa dica de que escrever crônica não é complicado. Ensinar-me que o mote delas pode ser um sorriso, o voo de uma borboleta ou o canto de um sabiá.

Como poderia aprender do cronista a lição de que um bom texto nasce do vento ou do silêncio da cor da flor. Poderia também nascer do palpite do jogo-do-bicho, ou mesmo do ímã de um rebolado da mulher. Acho que a espontaneidade da crônica está em nosso olhar.

Está em nossa observação simples do que nos circunda. Penso que escrever crônica seja tentar fazer um texto elegante, trabalhado, refinando as palavras. É tentar retratar o instante, colher com delicadeza o fluir do tempo. Acho que devemos brincar de fazer rir ao escrever.

Não quero saber se o que escrevo é crônica ou não. Prefiro sabê-la como um aprendiz. Por isso quero tirar de cima de mim a responsabilidade da busca pela perfeição. Acho que pra escrever preciso apenas de um instante de sossego e a calmaria de um dia especial como o de hoje.

- Parabéns pra você. Enfim, você saiu do armário – gritou a abelhuda Matilde, a primeira a comemorar os meus 69 anos, neste três de outubro. Obrigado, Gil Perini, com o seu “O afinador de passarinhos”, que me entusiasmou a escrever este texto.

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