Confissão de crime

Edição: 670 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 23/10/2019 as 15:21

 
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Completei 69 na semana passada. No dia, já pela manhã, comecei a olhar pra trás. Queria ver a minha vida detrás pra frente, ao contrário. A primeira história que me veio à cabeça foi pelos meus onze ou doze. Éramos uma molecada nas redondezas da rua Larga (Dr. Esperidião).

A pacata Rio Preto era grande para os nossos sonhos de garotos criados soltos e livres pelas ruas. Havia épocas pra tudo. E aquela era a de caçar. E pra nós, a disputa era pra saber quem era o melhor na “tiradeira”, ou “estilingue”. Tudo começava pela arrumação da arma.

Era um tempo em que não existia cobrança e nem nos ensinávamos que devíamos preservar o meio ambiente. Muito menos proibiam o uso de nossas armas. É bem verdade que elas não eram de fogo. Só sei que herdáramos dos nossos antepassados a arte de caçar passarinhos com estilingues.

Nossa meta era matar passarinhos. Então, o primeiro passo era arrumar uma câmara de ar, velha. Geralmente, ganhávamos pedaços de câmaras, ou de um posto de combustíveis, ou, de um dono de caminhão. Já o gancho da arma (forquilha) vinha da leiteira, goiabeira ou jabuticabeira.

Depois de esquentado ao fogo, o gancho ficava na forma que queríamos. Então amarrávamos as duas tiras de borracha ao gancho e ao pedaço de couro (de botina velha), este pra segurar as balas: pedras redondas colhidas à beira de estrada ou na “Boca-da-barra”, à beira do rio Preto.

Tudo pronto, arma testada, munição nos bolsos (olha que não passava por nenhuma vistoria da Polícia Federal!) e lá íamos nós, morro acima, depois da missa do domingo. É, primeiro tínhamos que assistir à missa, senão nossas mães não nos deixavam sair de casa.

Íamos rumo ao Morro do Ginásio, depois para a Represa e, por último, voltávamos pelo Morro dos Pintos. Quando chegávamos da caçada, geralmente eram duas horas da tarde. Em grupo de cinco ou seis moleques, juntávamos todos no mesmo lugar pra fazer a contabilidade da caçada.

Era um horror a matança. Cada um tirava de dentro dos embornais os passarinhos mortos, com as marcas de sangue onde foram atingidos pelas pedradas. Eram sabiás, rolinhas, saracuras, e, por aí afora. Se fosse hoje, certamente estaríamos condenados, ou, no mínimo seríamos execrados.

Mas os tempos eram outros. Hoje, “graças a Deus” o estilingue já não é mais usado pela garotada. Na minha opinião até o estilingue deveria ser objeto de repressão à caça de animais. Quanta estupidez e ignorância matar ingênuos joão-de-barros, tico-ticos e sabiás!

Hoje, com meus 69 ponho a mão na consciência e me arrependo de ter matado passarinhos. Sei que não posso deixar de lembrar da construção de um bom estilingue. Gostaria de fazer um, mas apenas para testar a minha pontaria, quando acertava no cabo de uma manga madura.

Peço, publicamente, perdão aos indefesos passarinhos que matei na minha juventude. Hoje, sem nenhuma demagogia, nem formiga consigo matar. Penso que não posso decidir pelo fim de nenhum animal. Seja porque acho que me incomoda comendo minhas galinhas ou por fazer ninhos debaixo do meu telhado.

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