Andorinhas

Edição: 671 Publicado por: Marilda Vivas em 30/10/2019 as 10:09

 
Leitura sugerida

Dias desses amanheci um pouco antes da luz do dia. Dei um tempo e, mal clareou, já me lancei nas lidas do dia que, em geral, começa com o compromisso de levar Nina para um primeiro passeio matinal. A caminhada em si é curta: não ultrapassa os limites da praça que dá vida ao meu bairro. O ritmo e o tempo geralmente é ela quem determina. E foi justo nesse dia que observei o que talvez fosse a primeira revoada de andorinhas por essas bandas. Eram dezenas a compor um barulhento redemoinho demasiadamente belo e do qual só me dei conta depois de ter presenciado a captura, em pleno voo, de uma pequena plumagem trazida pelo vento.

O desfecho, para que saibam, se deu um pouco acima da altura dos meus olhos. Até então, estava certa de ser a única a acompanhar sua trajetória incerta. Ledo engano. Surgindo do nada e numa velocidade incrível, uma primeira andorinha tenta capturar a plumagem e, por muito pouco, não alcança seu intento. Mal consigo entender a cena, vem uma segunda andorinha, e tão veloz e silenciosa quanto a primeira, captura a plumagem com uma precisão nunca percebida por mim.

Alguma coisa indescritível ficou solta no ar.

Imersa nesse clima, voltamos para casa, Nina e eu.  

Entendo que quando as coisas apertam e as palavras cedem lugar ao silêncio está mais do que na hora de se lançar à poesia.  

 

Poesia

De Manoel Bandeira (1896-1968) pincei o singelo poema ‘Andorinha’ no qual brinca com sua própria tragicidade - desde a mais tenra idade o poeta conviveu com a iminência da morte. Doente dos pulmões, contraiu tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente. A perspectiva de deixar de existir marcou profundamente sua produção literária. Neste poema, ele dosa a melancolia de humor só possível entre aqueles que adquirem uma nova compreensão da vida.

 

Andorinha lá fora está dizendo:

-Passei o dia à toa, à toa.

 

Andorinha, andorinha, minha canção é mais triste:

-Passei a vida à toa, à toa.  

 

De Manoel de Barros (1916-2014) subtraí o poema “O muro” no qual o poeta recorre a toda uma simbologia concentrada na figura das andorinhas (que são aves migratórias) para inserir a imagem da liberdade e simbolizar o indivíduo sem fronteiras. Como mensurar a altura de duas andorinhas? Duas andorinhas: um par. Solidário e complementar.  

 

O menino contou que o muro da casa dele era

da altura de duas andorinhas.

(Havia um pomar do outro lado do muro.)

Mas o que intrigava mais a nossa atenção

principal

Era a altura do muro

Que seria de duas andorinhas.

Depois o garoto explicou:

Se o muro tivesse dois metros de altura

qualquer ladrão pulava

Mas a altura de duas andorinhas nenhum ladrão

pulava.

Isso era.

 

-.-.-.-

 

Não é preciso madrugar ou acordar mais cedo que a luz do dia para que a vida ganhe outros contornos. Nada disso. Poetas e poesias existem e podem ser acessados em qualquer fase da vida. Dentro e fora de cada um. 

Poetise-se.

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