Uma onça branca

Edição: 673 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 13/11/2019 as 12:22

 
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A história de hoje é verídica, contada pelo Dinho (não vou falar seu sobrenome, para não denunciá-lo ao IBAMA). Caçador de onças nas serras do Funil e de Três Cruzes (só caça escondido), ele é um profundo conhecedor dos segredos dos felinos, dos seus truques e, por aí afora...

A experiência desse caçador desses bichos vai das pintadas, pardas, até as ferozes jaguaranas-pixunas. Estas últimas, pretas dos olhos em fogo, são as mais raras de se encontrar. “Seu Dinho”, no entanto, fez carreira profissional de sucesso porque conhece as lapas onde moram essas onças.

Lapa delas é na beira de escarpados de pedras, revela o “home”. “É preciso ter coragem e muita fé em Deus, pra ir em furna dessa onça” – adverte. Ali, onde algumas delas “mora”, conta: “você chega e num encontra nem um ramo amassado e nem uma raiz quebrada. É um silêncioooo...”.

O paredão de pedra é preto para que a onça se confunda com a sua própria cor. É normal que a loca onde ela mora fique cercada por navalha-de-macaco, um arbusto impenetrável por causa dos seus milhares de espinhos.

Em dia de perseguição, só passa a onça, rente ao chão, sem arranhar. Só o bicho sabe entrar e sair sem deixar rasto. Diz o caçador que “é comum companheiro nosso fraquejar na hora que chega à beira da lapa. Tem ‘home’ que mija e caga pelas pernas abaixo”.

E a história que o Seu Dinho contou é de arrepiar qualquer um. É a seguinte; “eu vi os rastros frescos da onça e de um garrote sendo arrastado pelo mato. O cachorro continuava a latir, mostrando o caminho. Eu pensei comigo: - essa tá no papo. Conferi bem a minha espingarda, os cartuchos e segui em frente”:

“- Pra trás de mim só o Antero. O Zé Formigão ficou pra trás, se borrou todo quando ouviu o miado da onça. Eu caminhava e nem sentia os espinhos, só pensava na danada. Meu cachorro onceiro foi bem treinado e eu conhecia seu latido quando dizia se tratar de uma pixuna-preta”.

Eu nem piscava ouvindo a história do “Seu Dinho”. E não era só eu, tinha mais cinco comigo, sentados em volta da mesa, na cozinha da casa do Cardozinho, em Três Cruzes. Todos muito atentos no home. Já era noite e a cumplicidade da noite contribuía para o desenrolar da história.

“- Até que o cachorro mudou o latido. De uivos de lobo, o cachorro passou a chorar, um choro espremido, que nem gago quando pede socorro. Era um choro de cortar o coração da gente. Fiquei apreensivo”.

Pra encurtar a história: “quando cheguei na beira da lapa, lá estava o Brazão (cachorro) na boca de uma baita onça, mas era das brancas. De tão grande ela mais parecia um urso polar do que uma pixuna-branca. E isso não é mentira não, gente”!

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