Sem o pixaim

Edição: 675 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 27/11/2019 as 11:15

 
Leitura sugerida

Nos antigamente, uma barbearia tinha seu destaque. Era um lugar onde os homens confluíam para se enfeitar, fazer a barba ou cortar o cabelo. “-Vai ao barbeiro, hoje?”, – a pergunta certeira, do dia-a-dia, era para marcar um encontro. Ir ao barbeiro era também para atualizar as fofocas.

Barbearia era repositório da cultura de cidade pequena, como a minha, Rio Preto, onde você ouvia piadas e muitas histórias que não eram contadas em casa. O que não se contava nem para o seu melhor amigo, contava-se para o barbeiro. Barbeiro sério era aquele que se podia confiar.

Barbeiro era homem de presença na comunidade. Com o passar dos anos, clientela formada, barbeiro funcionava como um psicólogo ou terapeuta. Sabendo ouvir os clamores do cliente ele se impunha e se tornava num confessor. Com navalha na mão, barbeiro era muito respeitado.

A hora da barba era sagrada. Só o barbeiro falava. O cliente, encolhido e sem mexer na cadeira, ouvia tudo em silêncio. Mas barbeiro bão mesmo era também o que ajudava a clientela. Era comum barbeiro fazer pequenos consertos em bicicletas e amolar facas de clientes.

Os barbeiros do interior eram mesmo uns quebra-galhos de muitos problemas domésticos. Na ópera “O Barbeiro de Sevilha”, Fígaro, o barbeiro, era meio que um alcoviteiro, e ajudou ao seu amigo Conde Almaviva a conquistar Rosina. Até uma serenata o barbeiro fez para a amada do conde.

- Mas, afinal, onde quero chegar com essa xaropada toda? É que na minha cidade, quando ainda menino, minha mãe ou meu pai me levavam ao barbeiro pra cortar o cabelo. Era uma barbearia com três ou quatro cadeiras, não me lembro bem, na rua Santa Clara.

Era lá que meu pai gostava de fazer barba e cortar cabelo. Era a Barbearia do Seu Rubem Rocha, o que ficava na primeira cadeira, a principal da barbearia. Nas outras cadeiras ficavam os outros barbeiros, geralmente na última ficava o barbeiro menos experiente.

Lembro-me bem que num determinado dia, já quando ia sozinho cortar o cabelo presenciei uma cena que nunca me esqueci. Aguardava a minha hora de cortar. E eu seria o próximo, depois do velho que fazia a barba, na segunda cadeira.

Naquele dia o Seu Rubem Rocha não estava presente e sua cadeira, a primeira, estava vazia. Quem fazia a barba do velho era o Dinho (já falecido). A hora era mais ou menos três da tarde. Um mormaço quente e na barbearia havia um clima de sossego e silêncio. Só se ouvia o ventilador.

O velho deitado na cadeira com guardanapo de pano no pescoço dormia sereno. Era um cochilo providencial, enquanto Dinho lhe ensaboava o rosto. Devagar, o barbeiro ia deslizando sua navalha afiada pela face do velho. Era sabido na barbearia que o velho não gostava de ser acordado.

Era a primeira vez que o Dinho fazia a barba do velho. Naquele dia estava substituindo o Rubem Rocha, barbeiro de confiança do velho. Só o Rubem Rocha entendia as manias do velho, seu amigo de longa data. Só ele o acordava na hora que acabava de fazer-lhe a barba.

Mas, naquele dia, a troca de barbeiro foi prenúncio de uma tragédia que aconteceu na barbearia. Quando acabou a barba, o Dinho acordou o velho que olhou para o espelho. Ao perceber que não tinha mais bigode esbravejou:

- Por que você não me acordou pra me perguntar se podia cortar o meu pixaim?

- Como o senhor não gosta de ser acordado eu não o acordei. E, também, o senhor não disse pra eu não cortar o seu bigode.

0 comentários

avatar
Escreva seu comentário...
Seu nome...
Seu email...