O escravo Leandro

Edição: 676 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 04/12/2019 as 16:46

 
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O 13 de maio de 1888 assinalou a liberdade dos escravizados. A lavoura valenciana, desaparelhada, caía ante a crise resultante da Abolição. Os escravos que não foram atrofiados pelos cativeiros, deixaram as fazendas e migraram atraídos pelas construções dos centros urbanos. Aqueles que ficaram, na prática, permaneceram na mesma situação de antes do 13 de maio. Apenas uma minoria, tornaram-se colonos ou parceiros de seus senhores.

Entre os que ficaram nas fazendas valencianas, havia o escravo Leandro, que era “um preto dócil e venerado”. Ele nasceu escravo, no ano de 1820. Nesse mesmo ano, teve início a construção da primeira igreja de Valença, no exato lugar onde até então existia tão somente uma pequena capela, que na verdade era “um conjunto de toscos esteios de madeira, com paredes de palmito e ripas, ligadas por cipó Imbé, emboçadas de ligeiras camadas de barro e cobertas com ramos de palmeira”.

Sob os auspícios do vigário da freguesia, padre Joaquim Cláudio de Mendonça, e do Barão de Aiuruoca, major Custódio Leite Ferreira, foi aberta, entre os fazendeiros e moradores da freguesia, uma subscrição popular para a construção do corpo da matriz. Ainda adolescente, Leandro foi um dos escravos cedidos pelo seu senhor para trabalhar nas obras de carpintaria e de pedreiro da capela-mor. Consta que com apenas 16 anos de idade, “foi o rapazola, ativo e diligente, que ajudou a conduzir, sobre os ombros, as pedras com que foi construído, em 1836, o corpo da antiga matriz de Valença”.

Nos seus últimos anos de vida, o ex-escravizado Leandro morava na Fazenda do Paraízo, então de propriedade da senhora Itália L. Pentagna. Enquanto suas forças permitiram, era de lá que o velho colono partia aos domingos em direção a Santa Casa de Misericórdia, na cidade de Valença, para assistir à missa, recebendo, habitualmente, a comunhão. Essa era a oportunidade em que os seus concidadãos ouviam atentos às histórias contadas pelo centenário ancião, memória viva do nascimento da cidade.

Com idade de 114 anos e assistido pela generosidade dos seus patrões, que jamais o abandonaram, faleceu, em 1934, o ex-escravizado Leandro, “que tantas coisas bonitas e tristes sabia contar, relembrando o passado fidalgo de Valença...”

FONTE: “Valença de ontem e de hoje”, de Leoni Iório.

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