Um sem teto

Edição: 677 Publicado por: Aloisio Melo Morais em 11/12/2019 as 12:19

 
Leitura sugerida

A não ser o Dinho, ninguém mais soube esclarecer até agora, como aquele homem veio parar naquela caverna. Ele morava debaixo de uma pedreira. O lugar era na Serra Negra, em meio a penhascos e mata fechada, num grotão da serra.

Era um mulato alto e velho, sua barba agigantava-se sobre a barriga. Apenas um couro de bicho amarrado à cintura protegia suas partes mais íntimas, tanto na frente como na traseira. Sua cabeça e seu rosto eram grandes. Sua cabeleira tinha fios brancos e negros emaranhados.

A descoberta do montanhês se deveu a um “por acaso”, contou Dinho, um lendário caçador da região. Lembra que foi num dia de caçada, quando fustigava o mato por debaixo da pedreira, à procura de toca de paca, que deparou com o “Mulatão” – nome que dera ao homem.

A partir desse dia, revela Dinho que se aproximou do homem, mas que nunca conseguira conversar com ele. “O Mulatão está sempre mudo, é surdo”, disse. Não havia naquela loca de pedra, onde Mulatão morava, nenhum conforto.

“-E como esse homem se alimenta?” – perguntei. Eu como os outros ouvíamos, curiosos, aquela estranha história do Dinho. Estávamos sentados ao redor da fogueira no chão da caverna. Aquecíamos contra o frio. Toda história fica boa e misteriosa se o contador é confiável.

Esse era o nosso caso. Dinho tinha um vasto currículo como caçador. Era famoso pelos feitos de centenas de caçadas. Falavam que ele era tão valente, mas tão valente, que já havia matado uma onça por estrangulamento sem sequer o animal o arranhar.

Para quem, pela primeira vez participava de uma caçada de onça, sentia-se seguro diante dele. Embora duvidasse um pouco dessas histórias que contavam do Dinho, ele me passava confiança. “Come carne de onça”, respondeu o caçador, ao falar do Mulatão.

O estranho ermitão estava afastado da fogueira, mais ao fundo da caverna. Sua sombra gigante era projetada na parede do enorme salão da loca de pedra. Em silêncio, também ouvia a história do Dinho, sem dizer uma palavra ou fazer alguma pergunta.

Conversa vai, conversa vem, e Dinho continuava a falar do Mulatão. Dizia que o homem era um solitário, sem mulher, sem amor e filho.

Nesta hora, vindo do seu posto, o homem da caverna aproximou-se e interveio: “-Não sou nada disso, apenas não tenho emprego, onde morar e fui chifrado pela minha mulher”.

0 comentários

avatar
Escreva seu comentário...
Seu nome...
Seu email...