Os últimos dos Coroados

Edição: 678 Publicado por: Rodrigo Magalhães Teixeira em 18/12/2019 as 10:20

 
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Ao contrário do que a historiografia tradicional colocava – que os Coroados se extinguiram com a expansão do café, novos e aprofundados estudos demonstram que um projeto das elites de Valença com objetivo de se apropriar das terras indígenas da área, no século 19, foi o grande responsável pelo desaparecimento dos índios na região do Vale do Rio Preto. Estima-se que eles “desapareceram” logo após a Câmara ter apropriado as terras da sesmaria dos Coroados, em 1836, o território onde se fundou o aldeamento de Valença (1803), exatamente a área central da atual cidade.

Desde os primeiros relatos oficiais dos índios que habitavam o chamado Sertão do Rio Preto, em 1797, denominou-se genericamente Coroados todas essas sociedades indígenas linguisticamente vinculadas á família Puri-Coroado. Esses povos habitavam um vasto território, em ambas as margens do rio Preto, que atravessavam sem dificuldade porque sabiam fazer “uma amarra de cipós”, a qual prendiam de uma a outra parte do rio e passavam todos agarrados a mesma amarra. Em 1814, essa população indígena foi calculada em 1.400 pessoas.

De acordo com o Relatório da Presidência da Província do Rio de Janeiro, de 1835, a maior parte das terras da Aldeia de Valença em que habitavam os índios se achavam ocupadas “por intrusos” que nelas se estabeleceram, “de modo que hoje pouco terreno ocupam”. Em outro Relatório daquela mesma Província, datado de 1843, foram taxativos: “Em Valença desapareceu o aldeamento que deu origem a esta Vila, e os índios que restam vagam, em pequeno número sem domicílio, ou residência certa”. E, em 1850, ratificaram a informação anterior: “Aldeias antigamente fundadas em Valença, Mangaratiba e Rezende desapareceram inteiramente (...) Em Valença há alguns índios sem domicílio certo”.

A seguir, por meio de um ofício da Câmara Municipal de Valença, de 1872, em resposta a uma portaria do Governo da Província do Rio, afirma-se que era em número de vinte os últimos Coroados da região: “Essas raças têm quase totalmente desaparecido deste município, restando, unicamente, por ele dispersas cerca de 20 (...) e, os poucos que escaparam aos flagelos, foram aldear em outros lugares”. E, em fins de 1880, os pesquisadores da Biblioteca Nacional escreveram á Câmara de Valença, que respondeu no sentido de que já não mais existia índio habitando o seu território. “Em 1814 os brancos eram em número de 688, e os índios de 1.400. Pouco a pouco estes foram desaparecendo, e atualmente não se os encontra senão raríssimamente, e nenhum existe em estado selvagem”.

E, na edição do jornal de Bom Jardim de Minas/MG chamado “O Satélite”, de 31 de maio de 1939, sob o título “Um fenômeno”, noticiou-se a descoberta daqueles que podem ser considerados os últimos dos Coroados do Sertão do Rio Preto, outrora conhecido por “Sertão dos Índios”: “Chegou ao conhecimento da redação o fato de ter sido observado a existência de anõezinhos semi-selvagens, próximo à cidade. Foram, pela redação, encarregadas duas pessoas de confiança, e conhecedoras do local, para uma observação na mesma mata. As pessoas encarregadas, Srs. José Augusto Afonso e Sebastião Custódio, foram à Mata do Governo e lá nada registraram. Mas, na Mata do Cruz, foram vistos dois bugres, adultos, com dois filhinhos, sendo possível que esses indígenas, que representam os últimos remanescentes das tribos existentes no município, viessem às matas do Governo, que estão bem próximas à cidade e foram vistos apenas os filhos e que foram tomados por anãosinhos, pois o informante não poude saber se tratava de adultos ou creanças.”

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