Psicóloga explica como se dá a violência contra a mulher

Edição: 702 Publicado por: Redação em 25/06/2020 as 08:34

 
Leitura sugerida

Valença – A violência contra a mulher, durante décadas, foi assunto velado. Nos últimos tempos, muitas vítimas passaram a denunciar as agressões sofridas, mas muitas ainda se escondem sob o medo. O Jornal Local entrevistou Rafaela Alves, doutoranda em Psicologia pela UFRRJ e psicóloga da Assistência Social, com seis anos de atuação na proteção básica no Distrito de Santa Isabel do Rio preto e na proteção especial, no CREAS, em Valença. Ela falou sobre a violência doméstica, a pandemia, as motivações dos agressores e as consequências sobre as vítimas.

 

Jornal Local - Muito tem se falado sobre um possível aumento da violência doméstica neste período de pandemia. Por que isso está acontecendo? Aumento dos conflitos familiares.

Rafaela Alves - Para começar a responder essa questão é necessário trazer a perspectiva da importância da convivência, e ao mesmo tempo trazer esse novo contexto de mudanças de convívio em que estamos isolados afim de proteger a vida, e a saúde. Para a reflexão da importância da convivência vou reportar à escritora Sobonfu Somé, onde no livro: o espírito da intimidade, apresenta a comunidade como um lugar onde podemos nos comprometer uns com outros, pois a comunidade é o lugar onde as pessoas podem expressar seus dons, e recebem dádivas dos outros, onde podemos apoiar propósitos, espaço onde podemos cuidar umas das outras.

Sem essa doação a comunidade morre. E sem a comunidade, o indivíduo fica sem espaço para contribuir. Quando você não tem uma comunidade, não é ouvido; não tem lugar que possa ir e sentir que realmente pertencente a ele; não tem pessoas para afirmar quem você é e ajudá-lo a expressar seus dons. Essa carência enfraquece a psique, tornando a pessoa vulnerável ao consumismo e a todas as coisas que o acompanham.

E diante desse momento em que a estratégia de sobrevivência ao COVID- 19 é se isolar, as pessoas estão mais restritas em suas convivências e consequentemente psiquicamente enfraquecidas, nós somos seres coletivos e sociais. Construímos e somos construídos no meio em que vivemos. É importante ressaltar que a violência doméstica acontece no âmbito dos afetos, onde estão os vínculos familiares, onde as mulheres exercem suas atividades. Além do intenso convívio familiar, ressalto ainda a grande parcela da população que vivem precariedades em seus lares, como falta de saneamento básico, o desconforto somado à outras violências como a racial ou as violências devido ao padrão socioeconômico. Por exemplo: desemprego, ou trabalhos subalternizados, ou ainda vínculos de trabalho sem garantias, como trabalhar sem carteira assinada.

 

Jornal Local - quais são as principais causas da violência doméstica?

Rafaela Alves - A sociedade sempre foi atravessada pela violência, porém é no âmbito doméstico que ela tem a possibilidade de ser escondida, ou se olharmos historicamente, a violência privada era culturalmente permitida. Até pouco tempo, o homem que se casasse com a mulher que ele havia violentado era eximido do crime. A partir do momento que se cria Leis, e junto vem os julgamentos morais, a violência antes permitida, é proibida e malvista, e retorna ao porão de suas casas, o privado. Sempre me utilizo o olhar para o passado para buscar compreensão tanto de possibilidades, como também de entender os processos sociais que culminaram nessa realidade atual, assim é importante lembrar que foi no privado, homens brancos escravizavam homens e mulheres, e seguem em uma versão atualizada de exploração da força de trabalho. Homens e mulheres tinham seus corpos objetificados, negociados, explorados ou ainda violentados até em suas subjetividades. Aqui um exemplo de violência de classe associada ao Racismo Estrutural.

 

Jornal Local - Como as mulheres vítimas podem se prevenir para que uma situação não evolua para uma violência contra ela? Se elas já são chamadas de vítimas, será que é mesmo possível prevenir?

Rafaela Alves - Muitas vezes, a violência contra a mulher é posta de maneira muito injusta, sob a responsabilidade dela mesma, como se a mulher tivesse permitido tais violações. E mais uma vez o conceito de comunidade colabora para entender e resgatar nossa responsabilidade enquanto sociedade, enquanto guia, e um povo que apesar de modos egoístas de convívio, tem em si a solidariedade. Importante lembrar que o Brasil é um país construído com o poder centrado no homem, homem branco. Assim uma mulher desde o seu nascimento ela já se vê limitada á brincar apenas com as bonecas, e com o medo de fazer escolhas para além do repertório limitado que nos é apresentado, que pode variar ainda em caro e classe, delimitando sua existência, geralmente lugar de cuidado e do prazer, e muitas vezes no âmbito da casa. Assim quando uma menina chega a essa sociedade, já se sabe que é necessário resignificar suas possibilidades desde a escola, e nós enquanto comunidade, temos o dever de construir em conjunto com cada uma, seus sonhos, e suas possibilidades. Para assim subsidiar que modos de pensar, sejam atualizados de uma história de violação, e discriminação. E assim investir nessas discussões sociais, que buscam reparar ideias construídas com base em exclusão e seleção de pessoas. Prevenir é reeducar em todos os lugares e âmbitos, escola, trabalho, mídias e reforçar o compromisso de discutir ideias que fortaleçam a autoestima da mulher, que apresentem possibilidades diversas de existências, de trabalho, de atividades, principalmente na política e lugares de decisão.

É importante ter a consciência desse trabalho de reconstrução histórico, sendo reeducada, ela será capaz de construir uma visão positiva de sua existência, e de acessar oportunidades para sentir realizada. Então quando uma mulher toma conhecimento desse processo de reconstrução, ela esta atenta ao amor por ela, ao amor por suas ancestrais (sua mãe, sua avó), ao amor que ela tem por seus projetos e conquistas e qualquer tentativa de violar sua intimidade, será percebido. Existem violações de todo tipo: aos bens, a sua conduta social, a sua relação com os filhos, ou aos seus afetos (física, psicológica, moral, sexual e patrimonial).

 

Jornal Local - Como atuar para acabar com a cultura de violência contra a mulher na nossa sociedade?

Rafaela Alves - Considero que devolver à mulher a confiança em viver e ser é um compromisso da sociedade como um todo, é um dever enquanto estado, compor políticas públicas de reparação seja na educação, de assistência social, e de saúde. Talvez seja utópico pensar em acabar, mas é importante compreender o lugar de reestruturação social da mulher. Que a mulher possa ser entendida, vista e respeitada em sua importância, valorizada com suas contribuições, que ela possa partilhar suas habilidades à comunidade. Políticas públicas que possibilitem que a mulher possa, por exemplo, trabalhar e ter garantia de que seus filhos serão cuidados com dignidade e com integridade, lembrando de Miguel, que morreu em Pernambuco, creches e escolas principalmente à população negra e que tem sido violadas diariamente tanto pelo racismo institucional quando pelo racismo estrutural. Que feminismo e machismo sejam discutidos por todos e seja o objetivo de desconstrução em qualquer ação a ser efetivada. Que lugares de poder, que haja preocupação por parte de gestores, tenha o lugar da mulher como importante contribuição principalmente as mulheres negras, pois estas são as parcelas da população que mais mandam ações afirmativas de reparação social. A mulher precisa estar em cargos de decisão, em postos de trabalho nos mais diversos âmbitos, juízas, vereadoras, promotoras e que tenhamos espaços de discussão para a existência delas nesses lugares e todos os lugares. Leis que considerem a maternidade, e ainda políticas para que o Homem (pai) seja incluído nesse momento para que a responsabilidade de educação seja compartilhada. Existem países que a mulheres tem flexibilidade de horários quando estão no seu período menstrual, a mulheres historicamente sempre tiveram importância na sociedade, esse modo de pensar, e como concebem a vida. Reorganizar o trabalho, considerando a maternidade e a menstruação e seus ciclos biológicos. Essa pergunta, de resposta extensa, porém é importante políticas públicas que garantam desde a higiene, pois lembrando que no Brasil, o acesso ao saneamento básico é decisivo para o período menstrual. Segundo levantamento da ONG Trata Brasil, em 2016, 1,6 milhão de brasileiras não tinham banheiro em casa, 15 milhões não recebiam água tratada e 26,9 milhões moravam em locais sem coleta de esgoto. É rara a disponibilidade de absorventes para quem vive na rua ou está na cadeia. Então são políticas públicas que vão desde creches, escolas que conscientizem meninas, e meninos. Uma menina que menstrua com 13 anos já é cobrada socialmente, quando ela engravida ainda jovem, mais julgada ainda, mas o menino só vai tomar consciência lá para os 18 anos. Necessidade de escolas que ensinem responsabilidade e consciência das emoções à crianças e adolescentes, que eles tenham em seu repertório meios de cuidar de saúde emocional e mental.

Esse conteúdo é exclusivo para assinantes. Assine já e tenha acesso ao conteúdo na íntegra!

Galeria de imagens

0 comentários

avatar
Escreva seu comentário...
Seu nome...
Seu email...