Juventude em Questão: Como está a formação humana do jovem valenciano?

Edição: 410 Publicado por: Marcela Giesta e Marcelo Ribeiro em 18/09/2014 as 08:25

 
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Valença – Computadores, celulares, tablets, videogames, redes sociais, esporte, música, vestibular, faculdade, beleza, competição, popularidade, bebida, drogas... Tudo isso faz parte hoje do universo do jovem e, em Valença não seria diferente. Com a facilidade de acesso à maioria destes produtos, algo pouco levado em conta entre eles são os chamados “limites”. Tem sido constatado o crescente número de jovens, que mesmo com as facilidades, se encontram em estado de “vazio existencial”, o que tem alarmado a sociedade valenciana sobre as consequências. Através da série Juventude em Questão, o Jornal Local, explorará o ponto de vista de profissionais e adolescentes sobre os conflitos da juventude em Valença, debatendo o atual meio em que vivem, assim como os benefícios e malefícios da modernidade, a fim de propor soluções para um futuro mais positivo.

A adolescência é a fase de descobertas pessoais onde, além dos conflitos físicos, os adolescentes têm que lidar com conflitos emocionais. A pressão do colégio, junto à pressão familiar, sem contar a necessidade de o jovem mostrar ao outro que sabe lidar com tudo da melhor forma possível, sempre feliz e com boa aparência. A atual sociedade, com suas inovações tecnológicas trouxe, segundo especialistas, prejuízos no modo de vida dos jovens, gerando a falsa impressão de que “o mundo é fácil” e “todos os outros são felizes e realizados, menos eu”. Psicólogos, psicopedagogos e professores alegam que o distanciamento dos jovens da família e dos “valores básicos” da sociedade está cada vez mais crescente.

 

O tal “vazio existencial”

A psicóloga Bruna Ferraz define o estado do jovem valenciano como estado de “vazio existencial” por causa das novidades que surgem na adolescência, onde o próprio jovem não sabe se definir e, muitas vezes reproduz o comportamento de colegas ou grupos com que se identifica. A psicóloga esclarece que essa sensação, em virtude das dúvidas é comum entre os adolescentes, porém a falta do apoio familiar e “facilidades da atualidade” vêm potencializando tal estado, o que pode ser bastante prejudicial, e exemplifica os recentes casos de suicídios. Bruna atribui como fator importante para a potencialização das emoções do jovens o “imediatismo”, devido à facilidade de acesso aos seus anseios materiais. Ela não culpa a tecnologia em si, pois defende que veio para beneficiar a vida do ser humano, mas explica que o excesso é prejudicial a todos, sobretudo aos adolescentes. “A questão do suicídio, que eu observo, tem muito a ver com a pessoa não querer passar pelo problema. No adolescente tudo é mais potencializado. As pessoas não querem viver o processo de nada: elas querem idealizar e, imediatamente, conseguir. As pessoas toleram muito pouco a frustração, e esta é uma característica que já víamos nas pessoas e tem se generalizado”, explica.

Segundo a psicóloga, a vida moderna trouxe uma série de benefícios, mas também consequências. Hoje, na maior parte das famílias, os responsáveis trabalham fora. “É saudável, pois hoje os pais têm que trabalhar, mas eles têm que ter em mente que existem escolhas e, dentro destas escolhas, ter filhos no meio deste processo de trabalhar fora, é necessário que eles banquem isso: emocionalmente, e não apenas financeiramente”, Bruna destaca que, hoje, percebe muitos pais focados em compensar sua ausência através de presentes, sobretudo produtos eletrônicos. Essa “política de compensação” contribui negativamente na formação humana do adolescente, provocando o distanciamento destes jovens com a própria família, através do uso constante de celulares modernos, tablets, computadores e videogames. Como solução, a psicóloga aconselha que os pais façam a triagem destes aparelhos, analisando se são realmente importantes para o adolescente naquele momento. “Se você não impõe limites nestes casos, você não consegue impor em mais nada”, destaca.

As redes sociais são aliadas da atualidade, mas também podem ser grandes vilãs para a formação humana dos adolescentes. “Como é muito acessível, as pessoas querem aparecer da melhor forma, ressaltando sempre os aspectos positivos, então todo mundo é bonito e feliz nas redes sociais”, Bruna reconhece os benefícios das redes sociais em aproximar pessoas, mas acredita que ela estimula competições. “Tudo que está ali é superficial, pois você não mostra as dificuldades no dia a dia e, não necessariamente tem que mostrar, mas quem está vendo tem que entender que a vida não é só aquilo ali: aquilo ali é apenas uma parte da vida da pessoa”, alerta e sugere. “Nós estamos em um momento muito superficial e de inversão de valores também”, para a especialista, é função dos pais limitar o tempo em que o adolescente terá de acesso às redes sociais, e uma das formas pode ser os pais chamarem aos filhos, ao chegarem em casa, para uma conversa onde compartilharão os acontecimentos do dia a dia visando sempre o contato afetivo e educativo com os adolescentes.

A psicóloga concorda com os valencianos que alegam que as opções de entretenimento e cultura na cidade são poucas, mas acredita que há a acomodação por parte dos pais, cujo papel deve ser de propor aos filhos atividades onde tenham a oportunidade de conhecê-los e aos amigos. “Hoje, parece que o jovem vê graça se ele tiver que ‘sair’, então ele começa na ‘noite’ muito cedo, e isso acaba os induzindo à questão do álcool e das drogas”, a psicóloga explica que o convívio com festas acaba gerando a antecipação de hábitos, onde muitos adolescentes sentem a necessidade de afirmação através de bebidas alcoólicas a fim de impressionar os amigos e se igualar aos hábitos dos grupos. Desta forma, os pais e responsáveis perdem o controle de seus filhos por não ter a aproximação dos amigos dos filhos e alguns responsáveis sequer os conhecem. Bruna acredita que a forma de evitar tais situações é propor aos filhos que sejam feitas reuniões entre os amigos em suas casas, onde possam se aproximar e conhecer os amigos. Além disso, ela aponta que os pais devam “exercer o poder de pai e mãe”, dando limites à sensação de liberdade dos filhos. No incentivo a atividades externas, como a prática de esportes, a influência dos pais pode ser importante na hora de o filho “desacomodar”. A psicóloga sugere que os próprios pais acompanhem os filhos nas atividades, e mostrem aos filhos que a importância maior está no investimento ao bem estar físico e na melhora da qualidade de vida, e não na aparência.

Para Sanger Nogueira, professor de história em escolas públicas estaduais desde 2009, o que mudou muito as relações entre as pessoas foi o fácil acesso à internet. Para se discutir a situação dos jovens valencianos, tem que discutir o impacto da internet em suas vidas. “Na minha época, meu pai e minha mãe quando queriam saber o que eu estava fazendo, olhavam o que eu estava assistindo, o que eu estava comprando. Agora os jovens, com a rede social, que precisa de senha, os pais não têm a mínima noção sobre a vida dos filhos, e isso é impressionante”, afirmou. Para ele a principal questão é que, hoje, o jovem tem acesso a milhões de coisas que há poucos anos não tinha. Porém, o lado negativo é que esse acesso aumentou o abismo entre pais e filhos. De acordo com Sanger, um exemplo de distanciamento entre pais e filhos é o constante vazamento de fotos de garotas nuas através de aplicativos de celular. Isso, para ele, é uma coisa que os pais e a escola não pararam ainda para se preocupar. A principal consequência é o afastamento escolar da jovem que teve a foto vazada. Mas elas continuam marcadas para sempre, pois as pessoas continuam compartilhando aquela imagem. “O que eu acho interessante, que os pais também têm que fazer, é entrar no mundo da internet pra conhecer. A pior coisa que você pode fazer é não conhecer o lugar onde seu filho vai”, opina o professor.

Na questão cultural, Sanger também atribui a desilusão do jovem valenciano ao acesso que ele tem a informações de outras cidades, e até países. “Os alunos têm uma opinião muito negativa sobre a nossa cidade, de falar que Valença não tem nada, show ruim. Na minha época também tinha isso, só que agora eles têm acesso ao mundo. ‘Lá no Rio está passando Paul McCartney e aqui só show ruim. Lá no Rio está passando filme ‘X’ e aqui está passando filme brasileiro. Lá no Rio tem teatro e o daqui está fechado. Aumentou isso porque agora eles têm como comparar com muito mais coisa. Aí nossa cidade, por falta de opção cultural, sofre por causa disso. Fica uma imagem negativa da cidade”, diz. Sanger acha que a expectativa dos jovens aumentou muito e eles estão mais exigentes. E, em contramão, os representantes da população não têm esta visão.

A solução

“A família tem um papel importante na sociedade. Ela tem um papel importante em tudo. Se a família der mais atenção ao seu núcleo, ao que está acontecendo dentro dele, se tiver um contato mais próximo, investir no diálogo, que são “coisinhas” que sempre foram e sempre serão essenciais, acho que a tendência é enxergarmos um futuro melhor, menos adoecido, menos depressivo, com menos índices de suicídio”, a solução principal para Bruna é a participação e a união da família.

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1 comentários

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Carlos Henrique em 18/09/2014 às 23:11 disse:

Ótima matéria! Lendo isso, percebemos e conseguimos discernir como o supérfluo tem sido valorizado, e os verdadeiros valores de uma sociedade crítica e altruísta perdidos. Parabéns à psicóloga Bruna, por questionar um problema que veio à tona há tempos e que, aparentemente, está sendo ignorado pelo majoritário, e ao professor Sanger, pelas sábias palavras!
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