Encontro das Folias de Reis de Valença: religiosidade, arte e confraternização

Edição: 527 Publicado por: Marluce Magno(*) em 05/01/2017 as 10:42

 
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Naquela noite de quarta-feira, o trânsito estava complicado para veículos no Centro do município de Valença. Muita gente no entorno da igreja catedral, na praça à sua frente, nas ruas adjacentes... Muitos jovens! Não, não estavam aguardando show de alguma dupla sertaneja famosa ou da mais nova estrela do funk! Era 6 de janeiro, “Dia de Reis” e do “45º Encontro de Folias de Reis” (2016) do município. Caminhando, em meio à multidão, via nas rodinhas de bate-papo, uma ou outra farda indicando a presença de componentes dos grupos que iriam se apresentar. A farda de palhaço era a mais comum entre os jovens, embora tenha visto homens maduros envergando o traje. É fala comum, no contexto das folias, que as fardas exercem certo fascínio sobre o público feminino, principalmente a farda de palhaço. Considerando os sorrisos e os olhares das moças nas rodas, principalmente quando contavam com a presença de algum “soldado de Herodes” por perto, deve ser verdade! Mas a tradição paga um preço por isso. Segundo os mais antigos, o costume determina que o palhaço permaneça anônimo durante toda a jornada. Para isso, ele veste uma carapuça, com a qual circula, quando não está com a máscara. Mas como colher os frutos da sedução se, após se exibir dançando o chula e agitando sua capa, o revirão (“farda-lisa”), ou fazendo acrobacias (“farda-farrapo”), e falando versos que arrancam calorosos aplausos da plateia, deve permanecer anônimo? Difícil, não é mesmo?! Mas não são todos: vi vários circulando com o rosto coberto.

Enquanto buscava espaço para caminhar até o adro da igreja, onde um palco foi instalado, percebi que o público ainda não estava completo. A missa que celebra o “Dia de Reis” não tinha acabado e todos que se encontravam lá dentro, logo iriam ocupar o pouco espaço restante... A igreja estava repleta, como era de se esperar. O presépio, montado num espaço de fácil visualização para quem adentra ao recinto principal, capturava a atenção. A simulação de gruta, contendo a Sagrada Família e os Magos do Oriente, recebia iluminação evidentemente pensada para imprimir uma atmosfera mística ao cenário: alcançou sua meta com louvor! No altar, o grupo Folia dos Menezes, representando todos os grupos do município, acompanhava o ritual católico. Próximo ao final da celebração, Padre Edilson o convidou para entoar trechos do “canto das profecias”. As “profecias” são narrativas em versos do nascimento de Jesus e de sua adoração pelos três Reis Magos.

Retornando ao adro, continuei a circular, reconhecendo vários integrantes dos grupos que iriam se apresentar. As fardas dos foliões são imponentes. O estilo militar remete à seriedade e à conduta disciplinada, as cores (rosa, vermelho, amarelo, azul-celeste, verde-lima, branco...) à alegria, e seus adereços brilhosos denunciam que estamos diante dos protagonistas da festa! Os foliões representam os próprios Reis Magos! Tive a oportunidade de encontrar e saudar vários mestres-foliões: Alberto (Chacrinha), Cacá (Biquinha), Marquinho Cassimiro (Santa Cruz), Serginho (Rancho Novo), Sebastião (Canteiro), Cacá dos Menezes (Biquinha) e o Chico da Folia (Monte D’Ouro), presidente da Associação de Folias e mestre-de-cerimônia do evento. Ouvi também os nomes dos mestres Doca (Serra da Glória), Torrada (BNH-João Bonito) e Wanderley (Dudu Lopes) citados ao microfone, mas não tive o prazer de encontrá-los. Os grupos e seus mestres têm, na maioria das vezes, seus nomes associados ao bairro onde residem, que são os que indiquei entre parênteses. Há que registrar que o evento teve início no dia anterior, quando se apresentaram os grupos dos mestres Paulinho Charrete (Biquinha), Vinícius (Ponte Funda), Geraldo Rocha (Vadinho Fonseca), Guto (Monte D’Ouro), e Zezinho (São Bento), que, neste ano, integrou-se a jornada da Dona Alda (Cambota).

Um a um, os grupos foram chamados ao palco. Mestre e contra-mestre executam a cantoria, emoldurados, visual e sonoramente, pelos instrumentistas. Tem viola, violão, cavaquinho, pandeiro, caixa, afoxé, triângulo, reco-reco... Eles dão calor e ritmo ao canto. Mas são os floreios do acordeom que calam fundo na alma da gente! Não é à toa que dizem que “a sanfona é a alma da folia”! O público alterna sua atenção, ora para o palco, ora para o amigo ao lado – afinal é tudo uma grande confraternização –, ora para os palhaços do grupo que está se apresentando. Esses se juntam, posicionados logo abaixo do palco e, ao longo da apresentação, ficam pulando, dançando e gritando, com toda a irreverência que caracteriza o personagem.

Ao término de cada apresentação foram concedidos troféu e medalha aos representantes do grupo, em entrega solene, das quais participaram integrantes da gestão pública municipal. A realização dos “Encontros” tem sido resultado da parceria entre a Associação dos Grupos de Folia (AGFORV), a Secretaria de Cultura e Turismo do município, e a Igreja Nossa Senhora da Glória.

Enquanto um grupo sobe ao palco, os palhaços do anterior se dirigem à rua atrás da igreja. É ali que fazem a sua roda para “brincar o chula”. Sob o ritmo da sanfona e da caixa iniciam os rodopios e a batida dos pés que caracterizam a dança, regularmente interrompida para recitação de versos. Com criatividade, os palhaços versejam ironizando o cotidiano, galanteando jovens na assistência, contando pequenas estórias, exaltando ou ridicularizando a si próprios... O público delira! Também não faltam provocações de outros palhaços, de fora, que duvidam das habilidades dos que se exibem. Mas não tem conflito! É tudo parte da brincadeira! Os lugares para o público, em torno da roda improvisada, com condições para realmente apreciar, principalmente ouvir os versos, são poucos e muito disputados. Eu não tive sorte nesse ano!

A Folia de Reis é uma manifestação da cultura popular fortemente marcada pela religiosidade. Sua presença nas ruas decorre de um compromisso: ou por conta de uma promessa de sete anos aos Santos Reis, em retorno à alguma graça recebida, ou pela devoção permanente aos Santos, estimulada por uma extensa rede de devotos que aguarda ansiosamente pela visita dos grupos para abençoar sua casa e seu presépio. Na sua expressão, a Folia conjuga diferentes formas artísticas: a música (o canto das toadas acompanhado por vários instrumentos), a poesia (nos versos das toadas e na recitação dos palhaços), a pintura (nos revirões, nas bandeiras), a escultura (nas máscaras dos palhaços), o teatro (na representação da peregrinação dos magos) e a dança (o chula dos palhaços). Talvez esteja nessa combinação de fé com arte, abrangente no caso da Folia de Reis, que resida a chave que explica todo o encantamento que provoca. Disse Leonardo da Vinci: “a arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível”. Não podemos dizer, exprimir ou traduzir o que é “fé”, mas podemos contemplá-la no rosto suado daqueles que não se intimidam com longas distâncias, nem com o calor escaldante, para levar sua mensagem de amor e devoção aos Santos Reis!

(*) Graduada em História, e Mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)

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