Valença de tantas Valenças

Edição: 565 Publicado por: Professor Alexandre Fonseca em 27/09/2017 as 09:55

 
Leitura sugerida

Caetano Veloso, em sua clássica “Sampa”, imortalizou versos sobre um dos aspectos que mais me fascina – e assusta – nas cidades (pós) modernas: seus cenários e cenas recheadas de contradições e paradoxos, suas imprevisibilidades caóticas, suas identidades multifacetadas e fragmentadas. Obviamente, isto é mais perceptível em metrópoles globais, como a que inspirou a canção do tropicalista baiano, mas, nas últimas décadas, encontra-se cada vez mais presente, mesmo que de forma camuflada, em cidades de pequeno e médio porte.

Valença não escapa à regra e – agora que comemoramos o centésimo sexagésimo aniversário de sua emancipação – este modesto texto lhe rende homenagem levantando algumas de suas clivagens internas, históricas e atuais.

Afinal, qual Valença queremos saudar?

Aquela nostálgica de passados imperiais e ditatoriais em que aristocratas escravistas e empresários colaboradores do regime militar amealharam fortunas e prestígio? Ou aquela que ainda culpa os trabalhadores pelo fim dos ciclos de bonança cafeeiro e têxtil, só porque tiveram a ousadia de lutar por liberdade – os escravos – e por melhores condições de trabalho – os operários?

A Valença das águas límpidas da Concórdia? Ou a das águas turvas da Cedae? A Valença de belas paisagens naturais e rico acervo arquitetônico? Ou a Valença descuidada dos poucos nichos de Mata Atlântica que lhe restaram, dos seus parques urbanos e dos prédios tombados quase a tombar? A Valença dona da segunda maior extensão de terras do estado? Ou a que obriga sua gente a consumir as sobras de hortifrutigranjeiros intoxicados que chegam do Ceasa?

A Valença que transpira arte nos saraus de Carlos Brunno, nas feiras de livros, nos ateliers de Zirley e Laurindo, nas escolas de música, no espírito seresteiro de Conservatória, no gingado do jongo de São José, na cantoria do reisado, na genialidade universal do maestro Antônio Rocha, na força do samba, da bossa, do blues e do rock emanada dos violões e guitarras de Paulinho Lima, Jô Macedo, Alex Correa, Cláudio Morgado, Delta Mood, The Black Bullets, Hipnotize e tantos outros? Ou a Valença do teatro (?) que desonra o nome e a memória de uma das suas maiores artistas, reflexo do descaso de autoridades que ainda atribuem importância menor à cultura ou a consideram um direito (privilégio?) de poucos?

A Valença de educadores obstinados e determinados que, unicamente por seus próprios méritos, nas salas de aula e, quando necessário – e, infelizmente, ainda é muito necessário – nas ruas, a qualificam com o melhor ensino público do interior fluminense? Ou a Valença que rebaixa sua bonita e dinâmica juventude, sobretudo a que reside nos bairros mais periféricos e nos distritos, à categoria de (sic) “escória”?

A Valença que se orgulha – com razão e justiça! – da contribuição imigrante (árabe, italiana, japonesa) para a formação do seu povo? Ou a que ignora, quando não se envergonha, dos sangues africano – Clementina à parte – e indígena que lhe correm nas veias?

A Valença da melhor faculdade privada de medicina do estado do Rio? Ou a do maior hospital público fechado? A Valença das iniciativas inovadoras vindas de micro e pequenos empreendedores do campo, da indústria, do comércio e do terceiro setor? Ou a das tramas de gabinete e dos conluios políticos fisiológicos e clientelistas?

Como se vê, são muitas Valenças! Quiçá uma só, mas com múltiplas identidades.

Podemos agir dicotomicamente, escolhendo apenas um lado destas moedas e, assim, permanecermos atados ao passado. Ou podemos agir dialeticamente, enfrentar estas contradições, tentar superá-las e construir o futuro.

Talvez tenhamos mais cento e sessenta anos para pensar....

Será???

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2 comentários

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Nico em 29/09/2017 às 23:19 disse:

Interessante notar que a ideologia esquerdista brasileira - um samba do criolo doido, com narrativas variando da tradicional luta de classes ao binômio opressor-oprimido - não contamina somente a grande mídia, mas também os pequenos jornais do interior...
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Maria Teresa D'Alessio em 28/09/2017 às 15:30 disse:

Parabens pelo seu texto!, Acredito que esta dicotomia sera dificilmente superada uma vez que a historia da cidade esta enraizada nesta polarizacao. Quica a nova geracao!
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